O Lido de Veneza voltou a ser o epicentro do cinema mundial a partir da última quarta-feira, dia 27, quando teve início a 82ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza. Tapete vermelho estendido, estrelas desfilando à beira-mar e seleção de filmes que promete fazer barulho nas salas de exibição e nos bastidores da geopolítica internacional.
Mas, neste ano, há uma ausência que não passa despercebida: o Brasil está fora da competição oficial. Sim, nenhum título brasileiro figura entre os concorrentes ao cobiçado Leão de Ouro em 2025. Uma ausência silenciosa, mas que não apaga a marca que nosso cinema tem deixado no festival ao longo das últimas décadas, e principalmente nos últimos anos, com presenças que variaram da catarse política ao drama sensível, da crítica social à celebração da diversidade.
Em 2024, por exemplo, o Brasil brilhou em Veneza como há tempos não se via. “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles, não apenas integrou a mostra competitiva como arrebatou o prêmio de Melhor Roteiro. O drama, baseado na história real de Eunice Paiva, mãe do escritor Marcelo Rubens Paiva, que luta por justiça após o desaparecimento do marido na ditadura, emocionou o júri e o público. Com Fernanda Torres (indicada ao Oscar) e Fernanda Montenegro em atuações memoráveis, o filme consolidou a potência do cinema brasileiro em tratar suas feridas com coragem e lirismo.
Na seção paralela Giornate degli Autori, “Manas”, de Marianna Brennand, venceu o GdA Director’s Award com a história devastadora e comovente de uma adolescente que enfrenta um sistema de abuso em uma comunidade do Marajó. Já o curta “Minha Mãe é uma Vaca", de Moara Passoni, foi selecionado para a mostra Horizonti e conquistou os corações com uma fábula sobre amadurecimento e conexão com a natureza no árido Pantanal. Se voltarmos mais no tempo, encontramos obras como *Abril Despedaçado* (2001), outro marco de Walter Salles, que retratou a violência cíclica do sertão brasileiro, ou o clássico “A Ostra e o Vento” (1997), de Walter Lima Jr., que encantou com sua linguagem poética e recebeu o prêmio CinemAvvenire. Mesmo fora da competição em 2025, é inegável que o Brasil já fincou sua bandeira no festival, e com honra.
- Jude Law ficou 'obcecado' por Putin na preparação de filme
- ‘Depois da Caçada’ é o filme de abertura do Festival do Rio 2025
- Julia Roberts estreia no tapete vermelho do Festival de Veneza
Estreias
Enquanto isso, a seleção deste ano chega com força política e sensibilidade social. Jude Law veste a persona de Vladimir Putin em “The Wizard of the Kremlin”, dirigido por Olivier Assayas, explorando os bastidores sombrios da ascensão do líder russo. Já “The Voice of Hind Rajab”, da franco-tunisiana Kaouther Ben Hania, promete arrepiar com o relato real da menina palestina assassinada em Gaza, um filme que já provoca burburinho antes mesmo da primeira exibição. A organização do festival se posicionou: “A Bienal de Veneza sempre foi espaço de escuta sensível e de denúncia”, disseram os curadores, após artistas italianos exigirem condenação formal à guerra em Gaza.
Julia Roberts retorna às telonas com “After the Hunt”, de Luca Guadagnino, em um drama sobre abuso sexual em universidades de elite americanas, enquanto George Clooney aparece em “Jay Kelly”, da Netflix, ao lado de Adam Sandler. E por falar em pesos-pesados, a competição pelo Leão de Ouro também inclui obras de Guillermo del Toro (“Frankenstein”), Yorgos Lanthimos (“Bugonia”), Kathryn Bigelow (“A House of Dynamite”) e Jim Jarmusch (“Father, Mother, Sister, Brother”), todos trazendo assinaturas estilísticas e estrelas do calibre de Cate Blanchett, Oscar Isaac e Idris Elba.
O Festival de Veneza, que segue até 6 de setembro, é mais que vitrine. É trampolim. Obras como “Coringa” e “Nomadland” nasceram aqui antes de conquistar o Oscar. Em tempos de polarização e guerras o cinema em Veneza tenta ser espelho e megafone.