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Vida mais que bela

“Uma Bela Vida" é dirigido por  Costa-Gavras
“Uma Bela Vida" é dirigido por Costa-Gavras Foto : Filmes do Estação / Divulgação / CP

Há filmes que distraem. Outros que emocionam. Mas poucos têm a coragem de provocar. “Uma Bela Vida”, vigésimo longa-metragem do consagrado Costa-Gavras, não pede licença para entrar – ele se impõe como um sussurro firme, delicado e implacável sobre o que evitamos olhar: a morte. Aos 92 anos, o diretor grego radicado na França demonstra mais do que vigor artístico — demonstra urgência. Não por acaso, aborda um tema tão frequentemente soterrado sob o barulho da vida moderna: os cuidados paliativos. Inspirado na obra de Régis Debray e Claude Grange, o filme acompanha o filósofo Fabrice em sua jornada de investigação sobre o fim da vida, guiado pelo olhar atento do médico Augustin. Em meio a pacientes terminais, surgem não apenas respostas — mas o mais importante: perguntas. O que é cura? O que é dignidade? Estamos preparados para morrer?

Costa-Gavras, reconhecido mundialmente por obras políticas como "Z" e "Desaparecido', abandona neste filme o grito de protesto para dar lugar à escuta compassiva — e isso talvez seja mais revolucionário ainda. Sua câmera não busca a espetacularização da dor, mas a escuta dos silêncios. Um gesto cinematográfico ético, quase clínico. Ele nos convida, sem chantagem emocional, a encarar o que ignoramos até que seja tarde demais. No Brasil, onde o debate sobre cuidados paliativos ainda engatinha, “Uma Bela Vida” é mais que um filme, é um chamado. Não se trata de aceitar a morte como derrota, mas de compreendê-la como parte do viver. O elenco que tem nomes potentes como Charlotte Rampling, Denis Podalydès, Kad Merad e Ángela Molina empresta humanidade aos dilemas universais que o roteiro levanta. Ao final da sessão, o que resta não é um nó na garganta, mas um incômodo lúcido. E é aí que reside a força desse cinema: nos fazer sair do escuro da sala para acender luzes onde antes havia tabu. Porque viver bem, afinal, talvez comece por aprender a morrer com consciência. Costa-Gavras nos dá mais do que um filme. Oferece uma despedida serena e uma convocação ética. E é belo, mesmo quando nos fere.

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