Tendo como ponto de partida os limites da arte erótica e o caos da criação artística, que envolve sanidade e loucura, a peça foi concebida por Sérgio Maggio, ao observar uma tela do artista plástico que a protagoniza, Jones de Abreu. O quadro pontua como um gesto cotidiano pode incitar um pensamento erótico, e o roteiro propõe um questionamento sobre as sequelas do abuso sexual. Vítima do abuso, o personagem busca se livrar da angústia que o persegue, por meio da arte. Ele acredita que encontrará sua redenção quando conseguir reproduzir na pintura a mesma energia sentida no momento do ato da violência. Como os modelos vivos que usa são garotos de programa, sua obra é vista como pornográfica, suja. Julgado e marginalizado pela sociedade conservadora, tem dificuldade em lidar com o erótico e é obrigado a seguir sua carreira sem acesso a galerias, acuado em seu processo obsessivo de criação.
Para compor seu papel, o ator visitou um hospital psiquiátrico de Brasília e conversou com vítimas de abuso, alguns com sexualidade muito aflorada e, portanto, censurados socialmente. Deste laboratório, tirou muitas características para Andrei, principalmente de uma mulher que desenvolveu neuroses por ter sido abusada quando criança, pela própria mãe. O texto foi estruturado em três planos: consciência, memória e delírio. O “aqui e agora” traz Andrei pintando a tela sob o testemunho do público. Na camada da memória, ele vive diversos personagens e vai resgatando seu drama. E no delírio, discute o que é real e o que é loucura, o caos da criação. O figurino se inspira na obra de Arthur Bispo do Rosário, e o cenário reproduz vídeos caseiros, com casais em relações sexuais e obras de arte erótica.