Arte & Agenda

“Vocês já ouviram falar em Jurema Finamour?”, indaga diretor de “A Mulher que Virou Bode”

Peça tem apresentação neste sábado, dia 13, integrando a programação do Porto Alegre em Cena

Com ingressos esgotados, a peça faz parte do 32º Porto Alegre em Cena
Com ingressos esgotados, a peça faz parte do 32º Porto Alegre em Cena Foto : Gilberto Perin / Divulgação / CP

A história da jornalista Jurema Finamour sobe ao palco do Teatro do CHC Santa Casa (Independência, 75) neste sábado, 13, às 20h. O espetáculo “A Mulher que Virou Bode”, que integra a 32ª edição do Porto Alegre Em Cena, resgata a trajetória da influente mulher no jornalismo brasileiro e na elite intelectual das décadas de 1940 a 1960, sendo, inclusive, perseguida pela ditadura militar.

Misturando teatro, dança, música e recursos audiovisuais, a peça conta com as atrizes Deliane Souza, Eulália Figueiredo, Iandra Cattani, Luiza Waichel e Sofhia Lovison. “Buscamos explorar os limites do documentário convencional e investigar diferentes possibilidades estéticas e dramatúrgicas”, explica o diretor da peça, Marcelo Bulgarelli.

O processo de construção do espetáculo se deu ao longo de 14 meses de trabalho entre pesquisa e ensaios. Motivado pelo livro “Jurema Finamour: A jornalista silenciada”, de Christa Berger, Bulgarelli afirma que o espetáculo surgiu a partir da frase: “Precisamos contar a história desta mulher”, dita por Luiza Waichel. Desde então, o projeto tomou forma e foi composto por quase 30 artistas.

Confira a entrevista com o diretor Marcelo Bulgarelli:

Caderno de Sábado: Qual a importância de relembrar a história de Jurema Finamour atualmente?

Marcelo Bulgarelli: Vocês já ouviram falar em Jurema Finamour?

A história de Jurema Finamour é uma oportunidade de lançar luz sobre uma figura fundamental da cultura brasileira, injustamente silenciada. O espetáculo resgata sua memória como escritora, jornalista e tradutora perseguida pela ditadura militar, trazendo ao palco sua vida, obra e resistência por meio de uma linguagem que integra artes da cena, música e recursos documentais. O mais impressionante é que aquilo que Jurema denunciava em seus livros continua atual: o desmatamento da Amazônia, a luta das mulheres por direitos e a afirmação de sua presença, voz e protagonismo na sociedade, as desigualdades sociais, os efeitos da ditadura, entre outros.

Relembrar sua obra é reviver essa voz crítica, que ecoa em nosso presente e contribui para reinscrever sua trajetória no imaginário cultural contemporâneo. O teatro, nesse sentido, reafirma-se como lugar de memória, denúncia e transformação social. Relembrar para não esquecer.

CS: Como foi a construção do espetáculo? A “base” se deu a partir do livro “Jurema Finamour: A jornalista silenciada?”

MB: O processo de construção do espetáculo — desde a concepção do projeto, pesquisa, ensaios até a estreia — se desenvolveu ao longo de 14 meses de trabalho intenso e colaborativo. Foram práticas que articularam corpo, voz, pensamento crítico, pesquisa documental e criação autoral, em um percurso potente que mobilizou diferentes linguagens e saberes artísticos. A motivação inicial veio do livro Jurema Finamour: A jornalista silenciada, de Christa Berger, obra premiada com os prêmios Açorianos e Minuano de Literatura. Christa, que hoje integra a equipe como dramaturgista, participou ativamente do processo, compartilhando arquivos e materiais de sua pesquisa pessoal. Também trabalhamos com base nos livros da própria Jurema e, em especial, em sua autobiografia A Mulher que Virou Bode (1994), escrita dois anos antes de sua morte, onde sua voz se fez mais presente, sobretudo em suas memórias sobre o golpe de 1964.

A dramaturgia e o texto ficaram a cargo da atriz e dramaturga Luiza Waichel que, com sensibilidade, delicadeza, pesquisa e rigor, foi capaz de, em diálogo comigo, dar forma à vida e à obra de Jurema em um espetáculo que une teatro, música e documentário. Foi um grande desafio: diante de tantas histórias, situações e percursos de Jurema, tivemos que escolher, selecionar e transformar uma vida intensa em cena. A essa base somaram- se outros artistas: as máscaras expressivas de Fabio Cuelli, a trilha original de Antonio Villeroy, a formação musical de Simone Rasslan, a assistência coreográfica de Carlota

Albuquerque, as colaborações de Claudia Sachs, além dos figurinos e cenários criados por Maíra Coelho e Rafael Silva. E, claro, o trabalho das atrizes Deliane Souza, Eulália Figueiredo, Iandra Cattani, Luiza Waichel e Sofhia Lovison, que deram corpo e voz a essa trajetória, entre outros.

CS: A ideia de “fragmentar” a jornalista a partir das múltiplas atividades que ela exercia foi pensada desde o início da idealização da peça?

MB: Desde a concepção do projeto, sabíamos que, para dar conta desta história, seria necessário mergulhar na vida e na obra da poeta e jornalista, propondo uma reconstrução da trajetória perdida de Jurema em uma fusão entre teatro documental e ficção. O caráter documental se revela no uso de arquivos reais — fotografias, imagens, textos da autora e depoimentos, como os de sua amiga Maria Helena Correa Pires (a Heleninha) e da própria pesquisadora Christa —, que resgatam fragmentos de sua trajetória e conferem densidade à encenação.

No entanto, não se trata de uma simples reprodução de documentos: buscamos reinterpretá-los, investigá-los e convertê-los em matéria cênica viva, trazendo à tona questões que permanecem urgentes. O aspecto ficcional da montagem, por sua vez, abre espaço para a renovação poética e para reflexões sobre vozes silenciadas ao longo da história — sobretudo as das mulheres —, ampliando a discussão para outros grupos marginalizados. Ainda, o caráter documental expõe, por meio de documentos reais, uma verdade profundamente ligada às dinâmicas políticas e sociais. Em A Mulher que Virou Bode, essa verdade se manifesta em diferentes formas de testemunho, atravessando passado e presente. Assim, a peça adota uma estrutura fragmentada, em que tempos distintos se entrelaçam, criando múltiplas camadas de leitura e interpretação. Por meio de uma abordagem polifônica, que combina teatro, dança, músicas interpretadas ao vivo e recursos audiovisuais, buscamos explorar os limites do documentário convencional e investigar diferentes possibilidades estéticas e dramatúrgicas.

CS: De onde surgiu a ideia de levar a história de Jurema para os palcos?

MB: Em 2023, minha amiga e parceira de grupo, Luiza Waichel, chegou à minha casa com o livro de Christa Berger sobre a vida e a obra de Jurema Finamour nas mãos e, emocionada, exclamou: “Precisamos contar a história desta mulher”. Ela havia recebido o livro por meio de uma amiga em comum com Christa e, a partir daquele momento, sua motivação também me contagiou. Iniciamos então um mergulho intenso de estudos, leituras, conversas e a elaboração da parte projetual para buscar financiamento em editais públicos. Sem perceber, meses depois já estávamos dando forma a um projeto que reuniria quase 30 artistas — todos e todas trabalhando para recolocar Jurema no centro da cena, lugar onde sempre deveria ter estado.

*Sob supervisão de Luiz G. Lopes

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