A professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Maria Cátira Bortolini é uma das autores de um estudo inédito sobre povos indígenas das Américas. Publicada na capa da revista científica Nature, a pesquisa revela que os povos originários americanos carregam variantes genéticas únicas, antes não representadas em estudos baseados em populações europeias.
O estudo “The evolutionary history and unique genetic diversity of Indigenous Americans”, traduzido livremente para “A história evolutiva e a singular diversidade genética dos povos indígenas das Américas”, pode mudar a forma como se entende a genética.
A pesquisa revela a complexidade da história dos povos originários ao trazer novos elementos para a compreensão da origem e da evolução dos povos indígenas da América. Com base na análise de 128 genomas completos de alta cobertura, o maior conjunto desse tipo já analisado para populações indígenas americanas, o estudo revela uma diversidade genética muito maior do que a previamente conhecida, incluindo mais de 1,4 milhão de variantes inéditas.
Para a professora Maria Cátira Bortolini, que também é coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia (PPGBM) da Ufrgs, a publicação na revista Nature representa um avanço científico extraordinário. “Resultado de um trabalho construído com rigor, colaboração e respeito às populações indígenas”, afirma.
De acordo com a pesquisadora, “espera-se que esse estudo estimule a valorização da diversidade genética humana e da nossa história evolutiva, valorizando os povos originários da América, e contribua para descentralizar visões historicamente eurocêntricas na ciência”. Além dela, a pesquisa conta com a participação de outros pesquisadores vinculados e egressos do PPGBM da Ufrgs, que possuem tradição em estudos genéticos com povos indígenas.
- Pesquisadora da Ufrgs é uma das 100 Mulheres Brilhantes em Ética na Inteligência Artificial
- Vulnerabilidade reduz altura média de crianças indígenas e nordestinas
- Agenda do Bella Mais: veja programação para o Dia das Mães
Saiba mais sobre o estudo
O estudo reforça que a ocupação da América ocorreu há pelo menos 15 mil anos, a partir de populações que já estavam se diferenciando geneticamente há cerca de 25 mil anos na região da Beríngia – que conectava Ásia e América durante a última era glacial.
Os resultados mostram que a história desses povos é mais complexa do que se imaginava, com múltiplas migrações para a América do Sul e adaptações a ambientes extremos. Essas adaptações deixam marcas no genoma, especialmente em genes ligados à imunidade, ao metabolismo e à reprodução, evidenciando a ação da seleção natural.
Um dos achados centrais é a identificação e melhor compreensão do componente ancestral Ypikuéra (termo de origem Tupi), demonstrado como um sinal genético que persiste há mais de 10 mil anos em populações indígenas da América e que pode refletir a ação da seleção natural. Esse componente também apresenta conexões com populações da Australásia, indicando uma história ancestral compartilhada mais profunda do que se conhecia.
Além disso, o estudo detecta sinais de ancestralidade arcaicas, como neandertais e denisovanos, mantidos ao longo do tempo, possivelmente por contribuírem para adaptações biológicas importantes no contexto americano.
Na prática, os resultados mostram que os povos indígenas da América carregam variantes genéticas únicas que não estão representadas em estudos baseados majoritariamente em populações europeias. Isso tem impacto direto na medicina de precisão e nas políticas públicas, pois pode influenciar tanto o risco quanto a proteção em doenças comuns.
Segundo os pesquisadores do PPGBM, o conhecimento sobre a diversidade genômica é essencial para o desenvolvimento de diagnósticos e tratamentos mais eficazes e justos baseados em medicina de precisão.
