Adriana Haas

A maturidade é o Carnaval da vida

Colunista Adriana Haas explora a jornada de redescoberta na vida adulta, onde máscaras caem e novas possibilidades de ser emergem

No Carnaval, pode desvestir-se das personas que encarna durante o resto do ano, segundo Adriana Haas
No Carnaval, pode desvestir-se das personas que encarna durante o resto do ano, segundo Adriana Haas Foto : Freepik / Divulgação / CP

Minha colega Ana Paula certamente está, hoje, recolhendo suas cinzas. Carnavalesca de longa data, começou a aproveitar a folia semanas atrás, nos bloquinhos paulistanos em que pode tirar suas máscaras.
Como assim? O Carnaval não é a festa em que vestimos máscaras para brincar de sermos outros personagens?

Para Ana Paula, não. É na liberdade do Carnaval que, segundo a analista junguiana que é, ela pode “desvestir-se” das personas que encarna durante todo o resto do ano – as mesmas que a maioria de nós também sustenta e que aprendemos a vestir desde muito cedo, como as de profissional impecável, de mulher batalhadora, de mãe zelosa, de parceira disponível, de filha exemplar. São papéis que facilitam nossa adaptação a um roteiro social apresentado como o único caminho para nos tornarmos bem-sucedidas e que, na juventude, costumamos seguir sem muitos questionamentos.

Até que a maturidade chega com o potencial de se tornar o Carnaval de nossas próprias vidas: o momento de reconhecer as máscaras que já cumpriram suas funções em nosso processo de socialização, mas deixaram de servir. Algumas ficaram pequenas, outras incômodas. Há até aquelas que, observadas com mais atenção, nos causam estranhamento. Mas a boa nova é que, na metade da vida, podemos deixar cair as que ficaram ultrapassadas e escolher como queremos dançar nos carnavais que ainda temos pela frente.

O problema é que, diferentemente do Carnaval, essa “troca de fantasias” não acontece apenas na alegria. Pelo contrário. Em geral, é doloroso perceber que algumas máscaras passaram a nos aprisionar. As vestimos por tanto tempo que elas acabaram se confundindo com nossa própria identidade e as utilizamos para nos apresentar ao mundo. Quando entendemos que somos mais do que isso e que há muitas outras possibilidades para brincar, a ausência de certezas e a própria liberdade podem nos apavorar – não por acaso, esse processo costuma receber o nome de “crise da meia-idade”.

A crise como oportunidade

Essa crise, no entanto, pode deixar de ser um rótulo e se tornar um processo que abre espaço para novas formas de existir. E, assim como o Carnaval, ela é uma travessia intensa e capaz de reduzir a cinzas coisas que já foram importantes, mas perderam o lugar – ainda que insistamos em mantê-las por hábito, apego ou falta de coragem.

Não foi o que Ana Paula fez em seu próprio Carnaval da maturidade, quando realizou uma transição de carreira depois dos 50 e está descobrindo a aventura de experimentar novas máscaras – ou nenhuma delas. Até mesmo no papel mais caro para grande parte das mulheres, o da maternidade, ela precisou descobrir alternativas que permitissem à filha, já adulta, dançar suas próprias músicas. Por certo, recolheu muitas cinzas do que foi incinerado, mas hoje colhe os resultados de não ter se recusado a atender ao que a vida lhe pedia – e segue no paciente trabalho de transformar em diamante aquilo que antes precisou virar cinza.

Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.