Claudete Corrêa

Ansiedade ou teimosia? Nem tudo é birra no pet

A colunista Claudete Corrêa explica por que a ansiedade pode parecer teimosia nos cães e como observar o contexto ajuda na convivência

Comportamentos que parecem teimosia podem estar ligados à ansiedade e ao contexto vivido pelo cão
Comportamentos que parecem teimosia podem estar ligados à ansiedade e ao contexto vivido pelo cão Foto : Claudete Corrêa / Arquivo Pessoal / Divulgação

Você pede para ele descer do sofá. Ele olha para você e sobe de novo. Você chama para vir, e ele finge que não ouviu. Depois de repetir o mesmo pedido pela terceira vez, é quase automático pensar assim:

“Ele sabe que não pode, mas faz assim mesmo. Só para me contrariar.”

Só que, na cabeça de um cachorro, as coisas não funcionam bem desse jeito. O que é, de fato, teimosia? Teimosia é um conceito humano — pressupõe que alguém entende uma regra, tem plena capacidade de segui-la, e escolhe deliberadamente não seguir, só para provocar.

Cães não operam dessa forma. O que parece “desobediência de propósito” costuma ter uma explicação bem mais simples: o comando não ficou claro para ele, o ambiente está mais interessante do que o pedido, ou ele já aprendeu, sem querer, que insistir funciona. Nenhuma dessas situações é birra. São, na verdade, oportunidades de ajustar como a gente ensina.

Quando a ansiedade se disfarça de teimosia

Existe ainda um outro cenário, que passa despercebido com frequência: o cachorro não está sendo “difícil” — ele está ansioso, e a ansiedade dificulta a capacidade dele de responder a comandos, mesmo os que já conhece bem.

Um cão agitado, que anda de um lado para o outro, ofega sem calor, ou ignora um comando simples em um momento de tensão, não está desafiando você. “Ele fez de propósito, para me contrariar.” Na maioria das vezes, o que está acontecendo é o oposto: ele não conseguiu se organizar o suficiente, naquele momento, para atender ao que foi pedido.

Na rotina, o que muda quando entendemos isso?

Antes de repetir o comando mais alto, ou insistir no mesmo pedido, vale parar e observar o contexto: o ambiente estava calmo ou agitado? Havia algo novo, uma visita, um barulho diferente? Entender a causa não significa deixar de ensinar limites — significa ensinar de um jeito que realmente funcione, no momento em que o cão está apto a aprender.

Para refletir

Na próxima vez que ele parecer “não obedecer”, observe:

  • Em que momentos isso costuma acontecer?
  • Como está a postura dele — orelhas, cauda, respiração?
  • O ambiente estava calmo ou agitado nesse momento?

Antes de rotular como birra, vale a pena perguntar: ele não quis, ou não conseguiu?

Na próxima conversa...

Seu cachorro pula em você toda vez que você chega em casa? A maioria das pessoas acha que é só alegria. Mas será que é só isso? É sobre isso que vamos conversar na próxima semana. Porque, quando a convivência melhora, todos ganham.

Claudete Corrêa é educadora comportamental canina, adestradora, pet sitter e dog walker. Atua no universo pet há quatro anos, com foco em comportamento e na construção de uma convivência mais equilibrada entre cães e tutores.