Elisa Fernandez

Vou beijar-te agora…

Elisa Fernandez reflete sobre a ressaca emocional daqueles que viveram o Carnaval intensamente

O distanciamento pode provocar uma melhor compreensão dos acontecimentos e evitar arrependimentos futuros
O distanciamento pode provocar uma melhor compreensão dos acontecimentos e evitar arrependimentos futuros Foto : Freepik

Cara leitora,

Lá se foi o Carnaval! Da euforia da marchinha “Máscara Negra”, composta por Zé Keti e Pereira Matos – um dos maiores hinos do Carnaval brasileiro, eternizado na voz de Dalva de Oliveira com o famoso verso: “Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é Carnaval” – passamos para a famosa ressaca pós-folia.

Há algum tempo, aqui nesse mesmo espaço, falamos sobre a volatilidade dos relacionamentos, que acontece por inúmeras razões – principalmente pela facilidade da “troca” em detrimento do “fazer dar certo”. Aquela coisa que, além de amor e carinho, requer paciência, boa vontade e, sim, até certo ponto dá trabalho. E com o Carnaval então?

Mas é nessa “ressaca” de foliã aposentada que me vem à cabeça mais uma música carnavalesca: “Camisa Amarela”, composta em 1939 por Ary Barroso. Um dos grandes sambas-exaltação do Brasil, famoso pela melodia marcante e pela letra nostálgica e bem-humorada. A música conta a história de uma mulher narrando as peripécias do parceiro em uma farra carnavalesca, onde ele teria exagerado na bebida e aprontado poucas e boas enquanto vestia uma “camisa amarela”.

A canção foi imortalizada por vozes como Carmen Miranda e Gal Costa. Com um tom saudosista e uma leve pitada de melancolia, a letra brinca com a ressaca emocional de quem vive intensamente o Carnaval e depois precisa lidar com as consequências.

Aquela coisa, né? Na quarta-feira, a poeira baixa e o encanto se desfaz. No meio das cinzas do Carnaval, há sempre aquele momento de reflexão: será que aquilo que jogamos fora merecia mesmo ser dispensado? Ou será que, no fundo, precisamos da distância para enxergar o valor das pessoas e das coisas? Ou a falta que fazem? Na música, a personagem, já no meio da folia, tenta recuperar o que talvez tenha perdido:

“Convidei-o a voltar pra casa
Em minha companhia
Exibiu-me um sorriso de ironia
Desapareceu no turbilhão da galeria.
”

Carnaval tem dessas coisas. A gente se perde na folia, mergulha no excesso, se entrega… e, às vezes, só depois percebe o que realmente importa. Quando a festa acaba, bate aquela ressaca física e moral, e com ela vem a dúvida: será que o que ficou para trás deveria mesmo ser esquecido? E assim, na música, ele:

“Pegou a camisa, a camisa amarela
E botou fogo nela
Gosto dele assim
Passada a brincadeira
E ele é pra mim.
”

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Queimar a camisa simboliza apagar os excessos, eliminar qualquer vestígio daquilo que foi vivido. Mas será que é assim? Nem sempre. Às vezes, é no distanciamento que encontramos a resposta. Às vezes, é no silêncio que percebemos que algumas pessoas – raras, valiosas – fazem falta. E, mais do que isso, queremos que voltem, com ou sem folia! Melhor sem, para não ter que se explicar muito, não é?

E assim, da marchinha, mais animada e festiva, ao samba, que carrega uma riqueza rítmica maior, podendo ser tanto dançante quanto melancólico e reflexivo, adentramos a semana em que, para nós, brasileiros, o ano efetivamente começa.


Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.