A reinvenção da dança do ventre: veja como a prática impulsiona a conexão feminina com o próprio corpo

Além de promover consciência corporal, a dança cria comunidades e laços entre bailarinas amadoras que buscam maior expressão da feminilidade

A Escola Harém atende exclusivamente o público feminino em Porto Alegre
A Escola Harém atende exclusivamente o público feminino em Porto Alegre Foto : Ricardo Giusti

Não se consegue afirmar quando a dança do ventre surgiu. Os primeiros registros chegaram com os recursos audiovisuais. Nas décadas de 1950 e 1960, bailarinas egípcias Fifi Abdou e Samia Gamal já dominavam a dança que o ocidente viria a conhecer como dança do ventre, com movimentos que isolam quadril, braços e tronco.

O termo “dança do ventre” funciona como um guarda-chuva para as diversas modalidades que os países árabes desenvolveram enquanto dança e cultura. No entanto, já podemos considerá-la como “mundializada”, sendo praticada em outros países como Havaí e Índia, que possuem culturas locais bem definidas.

Também é o caso do Brasil que, desde o final do século XX, já dava espaço para a modalidade nas academias de ginástica. Mas foi no início dos anos 2000 que a busca se intensificou com o auxílio de novelas e videoclipes como os da cantora colombiana Shakira. Com isso, começam a surgir escolas especializadas na dança do ventre mais tradicional (considerada a da região do Egito) e do folclore árabe (podendo ser do Líbano, Síria, Egito, Iraque ou de outros países árabes).

Apesar de já ser algo difundido no país, ainda há preconceito contra quem pratica, normalmente por confundir os movimentos de quadril como algo sensualizado, voltado para a sedução. Ou até mesmo com o figurino utilizado. Para Malu Bartz, bailarina e coreógrafa com carreira internacional, é algo difícil de mudar. “É um pensamento enraizado e de nada adianta lutar contra esse pensamento. A pessoa que quer praticar, trabalhar ou só aprender a dança precisa aceitar e ignorar. Essa é a única forma de fazer com que não afete a prática”, salienta.

No Rio Grande do Sul, a busca pelas aulas segue grande, apesar de ter reduzido desde o frenesi dos anos 2000. Agora, o intuito da procura é outro: cuidado com o próprio corpo.

“Foram muitos anos recebendo mulheres que queriam dançar como a Shakira e que acabavam se frustrando. Levou muito tempo para que as pessoas realmente entendessem que a dança do ventre é uma dança que se faz para si mesma. Quem dança precisa fazer uma conexão interna muito grande e isso requer do emocional e do psicológico da bailarina. Por isso que dançar empodera. Ela [a dança] faz com que a gente se conecte com quem somos, do jeito que somos e com o nosso corpo do jeito que ele é”, explica Muna Zaki, bailarina e fundadora da Escola Harém.

Além da consciência corporal, muitas bailarinas amadoras buscam um local para trocar experiências e criar laços. O que torna uma sala de aula um espaço de acolhimento, escuta e entrega.

Tamanho é o interesse de mulheres em descobrir a dança do ventre, que a região sul do Brasil é a que mais exporta bailarinas para dançarem em países árabes, apesar do sudeste ser considerado um polo de dança do ventre nacional. São Paulo, inclusive, é berço do festival “Mercado Persa Brasil”, evento que reúne escolas de todo país e de diversos lugares do mundo.

É inegável que, com o passar do tempo, a dança requer reinvenção. Isso aconteceu desde as formações mais básicas da dança, como as improvisações, deslocamentos no palco e movimentos de quadril, até as fusões, com estilos mais modernos do ballet e hip hop.

Desde 2020, o “bellypop”, criado por Malu Bartz, tem influências da movimentação de danças árabes, do jazz e da dança de salão com músicas pop. Segundo ela, é uma forma de manter a dança viva e de tentar afastar o preconceito. “O ‘bellypop’ nasceu da minha visão de que as pessoas tem um olhar deturpado da dança do ventre, então quis quebrar isso trazendo um pouco mais da cultura pop”, explica a professora.

Veja Também

Reinventar não significa modificar por completo. É agregar o novo ao que já é conhecido e estudado. Muna entende que a dança se mantém viva a partir do momento em que uma pessoa se interessa por ela, já que quando uma mulher busca estudar e se interessa pela dança de ventre, ela traz a sua própria bagagem e interesses para a sala de aula. “Como professora, a maior realização é ver alunas se desenvolverem. A dança do ventre faz com que cada mulher seja única, interpretando a música árabe com a leitura de cada corpo para a música. Assim, a dança vive através das bailarinas”, pontua.

*Sob supervisão de Luiz G. Lopes