O limite entre o cuidado mútuo e a anulação pessoal dentro de um relacionamento costuma ser sutil, mas identificar quando o afeto se transforma em dependência emocional é o primeiro passo para preservar a saúde mental. Em muitos vínculos afetivos, comportamentos interpretados como grandes demonstrações de amor podem, na verdade, camuflar um processo silencioso de perda de autonomia.
De acordo com uma cartilha desenvolvida por psicólogos da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), esse quadro se configura quando um dos indivíduos coloca o parceiro no centro de sua vida de maneira desproporcional. Essa centralização costuma levar à adoção de atitudes voltadas exclusivamente para satisfazer o outro — muitas vezes com prejuízo à própria saúde mental — e a uma sensação constante de frustração por expectativas nunca atendidas.
A linha que divide o afeto da dependência passa, essencialmente, pela preservação da individualidade. Segundo o médico psiquiatra Guido Boabaid May, CEO da GnTech, a escolha mútua é a base de um vínculo equilibrado. “Um relacionamento saudável é aquele em que duas pessoas escolhem estar juntas sem abrir mão da própria identidade”, aponta. Para o especialista, enquanto a harmonia se apoia no apoio mútuo, no compromisso e na manutenção dos objetivos e amizades de cada um, a dependência drena essa autonomia.
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O guia “Relacionamentos Saudáveis – Como reconhecer o que faz bem (e o que não faz)”, lançado pelo Instituto Natura e a Avon, ajuda mulheres a identificarem os pilares de uma relação baseada no bem-estar mútuo. Respeito, carinho, confiança e liberdade, além de espaço para crescimento pessoal e apoio aos sonhos de cada um são os principais indicadores de uma relação que faz bem para os dois.
Comportamentos nocivos para a relação, que frequentemente passam despercebidos ou são erroneamente normalizados, também são listados pelo guia. Mas, afinal, como identificá-los? Nem sempre é fácil perceber quando uma relação deixa de ser saudável.
Pensando nisso, o médico psiquiatra Guido lista alguns pontos para ajudar a entender se o relacionamento está comprometendo a autonomia de um dos parceiros. Veja a seguir quatro sinais de dependência emocional:
1. Necessidade constante de contato
No início de um relacionamento, alguns comportamentos podem ser confundidos com paixão intensa. Sentir-se ansioso quando o parceiro demora a responder mensagens, abandonar gradualmente atividades e interesses pessoais para priorizar a relação e ter dificuldade para tolerar momentos de distância são comportamentos que acendem um alerta. No entanto, quando a necessidade de estar conectado o tempo todo gera sofrimento, é importante observar com mais atenção.
2. Ignorar comportamentos tóxicos
Ignorar comportamentos que causam desconforto ou justificar atitudes inadequadas para preservar a relação também pode indicar um vínculo emocional desequilibrado. “Outro sinal frequente é a tendência a idealizar o parceiro, ignorando comportamentos que causam desconforto ou justificando atitudes inadequadas para preservar a relação”, explica o psiquiatra.
3. Confundir controle com demonstrações de amor
Algumas atitudes frequentemente romantizadas podem esconder sinais de perda de autonomia. “Abrir mão de todos os próprios interesses para agradar o parceiro, tolerar repetidas situações que causam sofrimento por medo de perder a relação, monitorar constantemente a rotina do outro e acreditar que ciúme excessivo é sinal de amor são exemplos comuns”, alerta o especialista. “O amor saudável envolve cuidado e concessões, mas não exige o apagamento da individualidade”, comenta.
4. Medir a qualidade da relação pelas redes sociais
As redes sociais também podem contribuir para expectativas irreais e aumentar a insegurança dentro dos relacionamentos. “A internet frequentemente apresenta versões editadas e idealizadas dos relacionamentos. Isso pode criar expectativas irreais sobre felicidade constante, ausência de conflitos e demonstrações públicas permanentes de afeto”, explica o médico. “Quando o relacionamento passa a ser medido pela frequência de mensagens, curtidas ou publicações, há um risco maior de ansiedade e desgaste emocional”, pontua.
O que fazer?
Para o especialista, o fortalecimento da autoestima e da autonomia emocional são fundamentais para a construção de relações mais saudáveis. “Quanto mais a pessoa consegue reconhecer seu próprio valor independentemente da relação, menor a probabilidade de estabelecer vínculos baseados na dependência.”
O médico também reforça que dependência emocional não é sinônimo de amar intensamente. “O problema surge quando a relação passa a comprometer a autonomia, a saúde mental e a capacidade de fazer escolhas livres”, diz. Nesses casos, buscar ajuda profissional é um passo importante. “Relações saudáveis permitem que cada pessoa cresça e se desenvolva enquanto compartilha a vida com o outro”, observa o psiquiatra.
