A recente polêmica em torno dos perfis chamados de “Dix”, que são espaços alternativos onde adolescentes compartilham conteúdos mais íntimos e espontâneos, reacendeu o debate sobre a maneira como os jovens estão usando as redes sociais hoje. Mas a verdade é que a tentativa de escapar do controle dos pais não é uma novidade.
Antes, esse afastamento podia acontecer em diários, rodas de amigos ou até em blogs anônimos, trazendo para momentos mais recentes. Hoje, esse refúgio acontece diretamente no Instagram. “O Dix nada mais é do que um espaço pessoal onde os adolescentes podem se expressar sem a vigia de adultos. Eu vejo isso como a adolescência em si acontecendo”, explica a mestre e doutoranda em psicologia pela Ufrgs, Indianara Sehaparini.
No entanto, a ideia de “realidade virtual” já não dá conta da complexidade desses ambientes, que passaram a funcionar como extensões do viver. Ainda que funcionem como refúgios importantes para a construção de identidade e autonomia, a falta de consciência sobre a ideia de pegada digital pode transformar esses registros desintencionados em marcas permanentes.
“O único problema disso é que, como estamos em um espaço digital, não temos direito ao esquecimento. O que a gente posta vai ficar ali para sempre”, alerta a especialista. Então, para uma geração que cresceu com o celular na mão, essa linha entre o íntimo e o público se torna cada vez mais tênue e perigosa.
O desejo de ser visto e validado se mistura à noção de compreensão de personalidade. “Hoje ser um influenciador é um desejo inclusive de trabalho. Essa necessidade da superexposição, de ter curtidas, compartilhamentos, de ser famoso dentro desse espaço, se torna de fato uma necessidade”, afirma. Isso, por sua vez, pode provocar inúmeros sintomas como ansiedade, depressão, transtornos alimentares, irritabilidade e baixa autoestima, intensificados pela comparação constante e pelos filtros irreais de beleza populares online.
Para muitos adolescentes, as redes sociais funcionam como escape emocional diante da própria realidade. Consumir o cotidiano de influenciadores extremamente ricos, por exemplo, pode ser uma forma de fugir da própria vivência. Mas esse processo também pode provocar frustrações, sentimentos de inadequação e a falsa ideia de que basta esforço para alcançar qualquer padrão.
Ainda assim, a carência e a urgência por atenção podem levar os adolescentes a caminhos perigosos na internet. Por mais que perfis como o Dix sejam privados, cabe apenas ao jovem aceitar ou não quem poderá acessar seus conteúdos, promovendo assim o risco de permitir pessoas mal intencionadas aquele espaço restrito.
Cabe então aos pais e responsáveis a supervisão, instrução e mediação desse uso das redes. Até porque, além dos danos emocionais, os efeitos físicos da exposição excessiva às telas são crescentes. Entre eles: problemas de visão, sedentarismo, insônia, dificuldades alimentares e até prejuízo na percepção de saciedade naqueles que ficam vidrados nos conteúdos durante as refeições.
O papel dos adultos e o desafio de educar nativos digitais
Entender e adaptar a dinâmica familiar é essencial nesse processo. Muitos pais sentem que invadir o espaço virtual dos filhos seria uma forma de desrespeitar a privacidade e extrapolar os limites saudáveis da relação. Mas a psicóloga provoca: “Você deixaria seu filho ou filha às 2 horas da manhã numa quadra, sem luz, sozinho em um lugar que você não confia? Então, por que deixamos eles irem para a internet assim, soltos, sem ninguém supervisionar?”
Mesmo que os mais velhos não dominem a linguagem digital, isso não os isenta da responsabilidade. O caminho, segundo Indianara, está na aproximação respeitosa através da conversa. Sentar, trocar uma ideia e perguntar o que a criança está consumindo nas redes. A especialista aconselha a questionar de maneira mais sutil como “não precisa me mostrar, mas me conta”.
Para essa aproximação com os filhos, a recomendação é de que os pais busquem pontos de convergência com os mais jovens, compartilhem atividades, interesses e tentem entender o universo digital sem julgamento. Propor encontros e programas juntos como assistir a um filme, jantar ou ir ao cinema pode ajudar a “trazer o adolescente para perto, respeitando seu espaço, mas criando vínculo”, segundo Indianara.
Como apoio a esse processo, o Núcleo de Pesquisa e Intervenção em Famílias com Bebês e Crianças da Ufrgs desenvolveu uma cartilha de segurança digital, que busca orientar pais sobre o uso das telas e os riscos das redes sociais, tratando desde termos como a “nomofobia” e a “dark web” até estratégias de mediação e diálogo.
A juventude atual nasceu conectada, mas isso não significa que saiba lidar ou entenda seus riscos. Indianara lembra que muitos adolescentes não têm a maturidade para distinguir o real do virtual, nem para lidar com as consequências de suas escolhas digitais. Por isso, a educação digital precisa começar cedo. “A gente precisa instruir, conversar, ficar atento”, resume a psicóloga.
*Sob supervisão de Brenda Fernández
