O que estamos ensinando para nossas meninas?

Sem regulação específica, procedimentos estéticos em adolescentes acendem alerta sobre autoestima, comparação e saúde emocional

Brasil lidera ranking de cirurgias plásticas no mundo e expõe dilemas sobre autoestima entre as adolescentes
Brasil lidera ranking de cirurgias plásticas no mundo e expõe dilemas sobre autoestima entre as adolescentes Foto : Freepik

Qual era o presente dos seus sonhos quando você fez 15 anos? Uma festa? Uma viagem? Quem sabe um procedimento estético? Cirurgias como rinoplastia ou colocação de silicone sempre estiveram presentes no imaginário das adolescentes. Mudar algo na própria aparência pode ser um desejo comum nessa fase. Mas essa vontade tem se intensificado com o avanço da vivência digital que naturaliza procedimentos estéticos.

O Brasil ocupa, há três anos, o primeiro lugar no ranking mundial de procedimentos estéticos cirúrgicos, segundo a International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS). Entre os menores de idade do mundo todo, a rinoplastia é o procedimento mais realizado na última década, acendendo o alerta sobre o quanto a pressão estética tem começado cada vez mais cedo. Só em 2024, foram 45,512 procedimentos desse tipo entre jovens até os 17 anos de idade.

Hoje, a maioria das crianças cresce conectada. De acordo com a pesquisa TIC Kids Online 2024, 93% da população entre 9 e 17 anos no Brasil — cerca de 24,5 milhões de pessoas — usa a internet. É nesse ambiente que muitas meninas elaboram suas referências, se comparam e se veem expostas a diferentes padrões de beleza diariamente.

A psicóloga Sofia Sebben, doutoranda pela UFRGS, explica que as redes sociais têm influenciado diretamente o modo como adolescentes constroem sua identidade e passam a enxergar seus próprios corpos. Quando o contato com fotografias editadas, corpos manipulados e padrões estéticos irreais se torna constante, a ponto de estar, literalmente, na palma da mão, é comum que inseguranças e comparações passem a fazer parte da rotina, especialmente entre os mais vulneráveis.

Com a popularização de filtros que alteram traços faciais com a promessa de “corrigir ou retocar imperfeições”, cria-se um contraste entre o que aparece na tela e o que é refletido no espelho. A especialista explica que essa divergência de imagens interfere diretamente na percepção corporal e pode estimular o desejo de modificar feições que ainda nem terminaram de se desenvolver.

Na adolescência, autoestima, pertencimento e reconhecimento são questões delicadas. O momento sensível somado com a falta de uma conscientização clara sobre os riscos, a dor do pós-operatório ou a chance de arrependimento, pode fazer com que a intervenção cirúrgica passe a ser vista como uma solução rápida para um desconforto que é, muitas vezes, profundo.

Como pontua a psicóloga, o foco da discussão não deve estar apenas na escolha pela cirurgia, mas no que leva até ela. Em alguns casos, a mudança pode, sim, trazer alívio e ajudar a fortalecer a autoestima. Ainda assim, é essencial refletir se esse desejo surge de um incômodo real com o próprio corpo ou da comparação constante com os outros.

É nesse ponto que o suporte emocional e a escuta especializada fazem diferença. Em algumas clínicas, os procedimentos são realizados dentro de uma abordagem multidisciplinar, com a presença de psicólogas no pré e no pós-operatório. O acompanhamento ajuda a alinhar expectativas, evitar frustrações e compreender os limites reais de cada procedimento.

Como explicam Cristina e Aline Sá Copetti, que além de mãe e filha, são profissionais da psicologia na clínica Psicoplast, esse processo é essencial para que os jovens se sintam mais conscientes e seguros em relação à própria imagem, com ou sem cirurgia.

“Os adolescentes estão muito voláteis às questões da mídia, das redes sociais, dos filtros e do padrão estético vigente”, diz Aline. “Eles estão em uma fase de formação de identidade e, muitas vezes, o que buscam é um ideal que a mídia coloca como irreal”, complementa Cristina.

Sofia Sebben aponta que há um apagamento da adolescência. Não se é mais criança, mas também ainda não se é adulto. Nesse momento de transição, o que os adolescentes precisam é de espaço para serem ouvidos, acolhidos e fortalecidos em sua autoestima, principalmente as meninas.

“Isso não quer dizer não fazer uma cirurgia ou procedimento, mas é também estar contente com o que você está se enxergando agora, entendendo as suas singularidades”, explica. E se um dia surgir o desejo de mudar algo, tudo bem, desde que isso venha de uma reflexão e não apenas de uma comparação.

Apesar de o Estatuto da Criança e do Adolescente definir a adolescência como o período entre 12 e 18 anos, o Brasil não possui uma legislação específica que restrinja a realização de cirurgias plásticas em menores de idade. De acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, “o que existe é a orientação ética e o bom senso do cirurgião, que avalia cada caso individualmente, considerando o tipo de procedimento, o grau de maturidade física e emocional do paciente e a real necessidade da intervenção. A recomendação é que haja desenvolvimento corporal completo e compreensão dos riscos e benefícios por parte do paciente e da família.”

No fim, a pergunta de Sofia segue ecoando: “O que estamos ensinando para as meninas quando autorizamos esse tipo de cirurgia meramente estética nessa idade?

*Sob supervisão de Brenda Fernández