Por que compramos mesmo sem precisar na Black Friday

Especialista em comportamentos compulsivos analisa o papel da dopamina nas compras por impulso e traz orientações para evitar arrependimentos

Pesquisa recente aponta que seis em cada dez brasileiros compram por impulso na internet
Pesquisa recente aponta que seis em cada dez brasileiros compram por impulso na internet Foto : Unsplash / CP

Com o avanço do comércio digital e o bombardeio de ofertas durante a Black Friday, o consumo deixou de ser apenas uma escolha racional e passou a envolver processos neurológicos ligados ao prazer e à recompensa. É o que explica o psicólogo Leonardo Teixeira, especialista em vícios comportamentais e fundador do programa Cartada Final, voltado ao tratamento da compulsão por apostas.

Segundo ele, o mesmo mecanismo cerebral que impulsiona o apostador a buscar o próximo ganho é ativado quando o consumidor visualiza uma promoção com tempo limitado.

“A Black Friday não vende só produtos, vende dopamina. O cérebro reage à expectativa de recompensa antes mesmo da compra. Frases como ‘só hoje’ ou ‘últimas unidades’ criam uma sensação de urgência que reduz a capacidade de decisão racional”, explica Teixeira.

Segundo o levantamento divulgado em novembro pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e o SPC Brasil, seis em cada dez brasileiros compram por impulso na internet e quatro em cada dez gastam mais do que podem. Entre os principais gatilhos estão promoções relâmpago, frete grátis e descontos com tempo limitado.

O estudo também aponta que 35% dos consumidores atrasaram contas por causa dessas compras e que quase metade reconhece emoções como felicidade e sensação de recompensa como motivação para consumir.

Veja Também

Para o psicólogo, os dados reforçam o que a prática clínica já mostra, o consumo por impulso é uma reação emocional, e não racional.

“Não é sobre necessidade, é sobre estímulo. Quanto mais recompensas rápidas o cérebro recebe, mais ele passa a depender desse circuito para se sentir bem”, afirma.

O especialista também chama atenção para o desgaste emocional e o ciclo de arrependimento que acompanha as compras impulsivas.

“O prazer da compra dura minutos; a culpa pode durar meses. É o mesmo padrão de euforia e frustração visto em outros comportamentos compulsivos”, completa.

👉 O que você precisa saber sobre garantia, troca e devolução de produtos nesta Black Friday

Para evitar que o consumo se transforme em gatilho, o especialista recomenda medidas simples de controle. Confira:

• Planejar o que realmente é necessário antes das promoções;

• Evitar compras em momentos de cansaço, ansiedade ou tristeza;

• Estabelecer limites de gasto e registrar tudo o que for adquirido;

• Substituir o impulso por atividades que também liberam dopamina, como exercícios, leitura ou descanso.

“O problema não é sentir prazer, é depender dele o tempo todo. Autocontrole é quando o indivíduo escolhe o estímulo e o momento, e não o contrário”, conclui Teixeira.