Tendência das redes inspira novo ritual de encontro entre amigas

Popularizada nas redes sociais, a cerâmica fria virou pretexto para encontros presenciais e novos rituais entre amigas

Reunidas à mesa, amigas trabalham com cerâmica fria e colocam a conversa em dia
Reunidas à mesa, amigas trabalham com cerâmica fria e colocam a conversa em dia Foto : Fabiano do Amaral

Fim de ano. A agenda lota de encontros marcados para a troca de presentes: empresas, academia, faculdade, amigos. O que poderia ser apenas mais um compromisso antes do Natal acabou se transformando. Em vez do ritual tradicional, quatro mulheres decidiram aproveitar o trend do momento para modelar peças de cerâmica fria e, com isso, colocar a conversa em dia.

Luana Chinazzo, 35, jornalista, pesquisadora e professora universitária; Mariana Gomes da Fontoura, 34, recrutadora; Bárbara Avrella, 36, recrutadora; e Maytê Ramos Pires, 32, jornalista costumam ajustar a agenda para se reencontrarem no fim de ano. Desta vez, a técnica de modelar peças artesanais com cerâmica fria — popularizada por vídeos no TikTok e no Instagram — serviu de ponto de partida.

O combinado era simples: um encontro para moldar as peças. Durante o processo, no entanto, veio a constatação de que seria preciso mais tempo. Assim, marcaram uma segunda noite, dias depois, para lixar, pintar e criar outra oportunidade de retomar a conversa interrompida pela rotina.

A iniciativa partiu de Luana, que há alguns anos vem buscando se envolver com hobbies manuais como forma de desacelerar. “Tenho tentado me envolver em atividades que me ajudem a me desconectar, diminuir a ansiedade e exercitar habilidades manuais”, conta.

Segundo ela, o interesse por crochê, fantasias artesanais de Carnaval e cerâmica acabou sendo rapidamente “captado” pelos algoritmos das redes sociais, que passaram a sugerir vídeos sobre o tema. “Perto do Natal, começaram a aparecer muitas ideias de manualidades para enfeites, especialmente com cerâmica fria. Compartilhei com as gurias e propus uma noite de confraternização e produção. Elas toparam na hora.”

Entre as mãos e a tela, referências do celular orientaram a modelagem das peças | Foto: Fabiano do Amaral

Para Luana, a criação em grupo torna tudo mais simples e prazeroso. “Com as amigas, tudo fica mais divertido e fácil. A gente se ajuda, troca dicas, sugestões e ainda tem para quem mostrar quando gosta do resultado”, afirma.

Segundo ela, os dois encontros, um para moldar, outro para lixar e pintar, acabaram se tornando também uma forma de criar espaços de lazer no meio da correria cotidiana. “É uma maneira de reforçar os laços que nos unem.”

Do hype ao cuidado

A cerâmica fria virou febre nas redes sociais, mas, para o grupo, o sucesso da técnica vai além do apelo visual. Bárbara, que faz aulas de cerâmica de alta temperatura, vê o boom como parte de um movimento mais amplo. “Por muitos anos se romantizou o excesso de trabalho. Hoje, bem-sucedido é quem consegue aproveitar, cuidar de si. Esse tipo de atividade é cuidado”, afirma. Ela mesma só começou a modelar depois de ser “bombardeada” por conteúdos nas redes.

Mariana amplia essa leitura. “Vejo como um resgate da vida fora das telas. Qualquer manualidade exige tempo, paciência e atenção plena. É uma forma de escolher ficar offline, mesmo que o impulso venha da internet.” Para ela, o valor está menos no resultado final e mais na experiência. “É brincar de novo, mesmo adulta. Experimentar sem o compromisso de fazer algo perfeito.”

Peças, estilos e histórias

Mesmo com influências cruzadas, as escolhas pessoais ficaram evidentes ao longo do processo. “Os interesses de cada uma aparecem”, conta Luana. “A Maytê fez brincos; a Mari, peças mais minimalistas para a casa; a Bárbara focou em presentes; e eu quis fazer enfeites de Natal, porque adoro decoração natalina.”

A primeira peça de Luana carrega uma história afetiva: um enfeite para a árvore com a marca da patinha da cachorrinha Joia. “Era uma referência que eu tinha salvo havia tempo. Queria muito ter ela representada no pinheirinho.”
Bárbara começou com uma plaquinha decorativa para presentear a filha recém-nascida de uma amiga. Já Mariana apostou em um porta-objetos simples, pensado para organizar anéis e brincos do dia a dia.

Errar junto também faz parte

Nem tudo saiu como o imaginado, e isso também entrou no pacote. “A gente vai errando juntas”, brinca Bárbara. “Isso faz parte do processo.” Algumas imperfeições ficaram para ser corrigidas na fase de lixar; outras viraram piada interna em construção.

A acessibilidade da técnica também surpreendeu, ainda que com ressalvas. Os kits têm custo médio alto, mas, divididos entre várias pessoas, tornam-se viáveis. “E sempre aparece alguma adaptação improvisada: um rolinho, um spray, uma tábua para proteger a mesa”, contam, rindo.

A etapa de pintura deu acabamento às peças modeladas no primeiro encontro | Foto: Fabiano do Amaral

Mais do que cerâmica

No fim das contas, a massa, as cores e as ferramentas dividiram espaço com algo maior. “É quase uma terapia em grupo”, define Luana. “A gente fala da vida, troca histórias, conselhos, ri muito. Sai com o coração preenchido.” Mariana concorda. “Assim como nos abrimos para experimentar algo novo com as mãos, também partilhamos a vida. Acolhemos e somos acolhidas.”

Para quem ainda acha que “não tem jeito” para trabalhos manuais, a resposta vem sem solenidade. “Eu também não tenho”, diz Luana, rindo. “O importante não é o resultado, é o processo.” Bárbara reforça: “Mesmo que não fique fantástico, você aproveitou o tempo com outras pessoas.” E Mariana completa: “Não acredito muito nessa ideia de não ter jeito. É desistir antes de tentar.”

Ao final dos encontros, o sentimento levado para casa foi unânime: afeto, partilha e alegria. A cerâmica fria pode até ter sido o ponto de partida, mas o que se moldou ali foi bem mais difícil de reproduzir em texto e fotos.

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Cerâmica fria: o que é, como funciona e cuidados

Popularizada por vídeos curtos no TikTok e no Instagram, a cerâmica fria ganhou espaço como uma alternativa acessível para quem deseja criar peças artesanais sem forno ou equipamentos complexos. Apesar do nome, a técnica não envolve argila tradicional nem queima em alta temperatura. Trata-se de uma massa sintética, pronta para uso, que endurece ao secar em temperatura ambiente.

O apelo está justamente na simplicidade do processo e na liberdade criativa. Ainda assim, alguns cuidados básicos fazem toda a diferença no resultado final, especialmente para quem está começando.

O que é cerâmica fria

A cerâmica fria é uma massa moldável composta, em geral, por resinas, cargas minerais e aditivos que permitem modelagem manual. Diferentemente da cerâmica convencional, ela não passa por forno. A secagem ocorre naturalmente, ao longo de horas ou dias, dependendo da espessura da peça.

Por isso, é muito usada para objetos decorativos, enfeites, bijuterias, placas personalizadas e pequenos utilitários, sempre com foco mais estético do que estrutural.

O trabalho com cerâmica fria costuma ser dividido em etapas simples:

  1. Primeiro, a modelagem. A massa é aberta, moldada ou esculpida manualmente, com o auxílio de ferramentas básicas ou improvisadas, como rolos, estecas, potes ou formas simples. Nesse momento, o material ainda está flexível e permite correções.
  2. Depois vem a secagem. As peças devem descansar em local arejado, protegidas de sol direto e umidade excessiva. Esse período é fundamental para evitar trincas e deformações. Dependendo do tamanho, a secagem completa pode levar de um a três dias.
  3. Com a peça seca, entra a fase de acabamento. Lixas finas ajudam a corrigir imperfeições, suavizar bordas e ajustar o formato. Só então vem a pintura, geralmente feita com tinta acrílica. Em alguns casos, aplica-se um selador ou verniz para proteger a superfície.

Cuidados que evitam frustrações

Apesar de simples, a cerâmica fria exige atenção a alguns pontos-chave. A espessura da peça é um deles. Camadas muito grossas dificultam a secagem uniforme e aumentam o risco de rachaduras. Trabalhar com espessuras regulares costuma trazer melhores resultados.

Outro cuidado importante é o manuseio da massa. Como ela seca ao contato com o ar, o ideal é manter o material que não está sendo usado bem embalado. Durante a modelagem, borrifar água levemente pode ajudar a evitar ressecamento precoce.

A superfície de trabalho também merece atenção. Tábuas, tapetes de silicone ou superfícies protegidas evitam que a massa grude e facilitam a limpeza. Por fim, é importante alinhar expectativa e função. A cerâmica fria não é indicada para peças que terão contato constante com água ou calor. Seu uso é mais apropriado para itens decorativos ou de uso leve.

O que é necessário para fazer peças de cerâmica fria

Materiais básicos

  • Massa de cerâmica fria pronta para uso (vendida em kits ou separadamente)
  • Superfície de trabalho lisa e protegida (tábua, tapete de silicone ou toalha grossa)
  • Rolo simples para abrir a massa (pode ser de cozinha)
  • Estecas ou ferramentas básicas de modelagem (podem ser substituídas por utensílios domésticos)
  • Pote com água ou borrifador para evitar que a massa resseque
  • Papel manteiga ou plástico para apoiar as peças durante a secagem

Para secagem e acabamento

  • Espaço arejado, longe de sol direto e umidade
  • Lixas finas (grão 180 a 400) para corrigir imperfeições após a secagem
  • Pano seco ou pincel macio para remover o pó da lixação

Para pintura e proteção

  • Tintas acrílicas (mais indicadas para cerâmica fria)
  • Pincéis de diferentes tamanhos
  • Selador acrílico ou verniz (fosco ou brilhante, conforme o efeito desejado)
  • Itens opcionais, mas úteis
  • Cortadores simples ou moldes
  • Régua ou espátula para cortes retos
  • Luvas descartáveis (para quem prefere evitar contato direto com tinta)
  • Potes ou caixas para organizar peças durante a secagem