O Diabo Veste Prada 2 traduz o poder da moda em 2026

Sequência recoloca Miranda, Andy e Emily em um mundo de revistas em crise, luxo digital, IA, influência e disputa por audiência

Miranda e Andy reaparecem lado a lado, em uma composição que contrapõe autoridade editorial e independência visual
Miranda e Andy reaparecem lado a lado, em uma composição que contrapõe autoridade editorial e independência visual Foto : Macall Polay / 20th Century Studios / CP

O Diabo Veste Prada 2 chega aos cinemas cercado por uma expectativa que vai além da nostalgia. Duas décadas depois do filme original, Miranda Priestly, Andy Sachs e Emily Charlton retornam em um mundo em que a moda mudou, as revistas perderam o monopólio da influência e o jornalismo passou a disputar atenção com redes sociais, influenciadores, métricas de audiência e inteligência artificial.

Em Porto Alegre, a volta da franquia foi antecipada na pré-estreia realizada na terça-feira, 28 de abril, no GNC Iguatemi, que contou com a presença do Bella Mais. Nesta quinta, 30 de abril, o filme entra oficialmente em cartaz no Brasil com Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci no elenco, sob direção de David Frankel. No mercado norte-americano, a estreia está marcada para 1º de maio.

A nova trama reencontra Andy 20 anos depois de sua passagem pela Runway. Miranda enfrenta uma indústria de revistas em transformação e volta a cruzar o caminho de uma Andy mais madura e confiante, enquanto Emily surge como uma figura importante dentro de uma marca de luxo.

É um deslocamento importante: se o primeiro filme era sobre hierarquia, desejo e aprendizado dentro de uma revista de moda, a sequência amplia o jogo para falar de sobrevivência editorial, mercado de luxo e novas formas de influência.

No filme de 2006, Andy entrava no universo da moda quase como uma estrangeira. Recém-formada em Jornalismo, queria escrever, apurar e construir uma trajetória em redações. Em 2026, essa tensão ganha outro aspecto. O jornalismo já não disputa espaço nas bancas, mas nos algoritmos. A autoridade editorial deixou de depender só da capa impressa, da sala fechada e do olhar da editora-chefe. Hoje, ela passa por audiência, dados, IA, plataformas digitais, creators e pela pressão de transformar tudo em narrativa publicável.

É nesse ponto que O Diabo Veste Prada 2 fica mais interessante para além do tapete vermelho. Miranda não enfrenta apenas assistentes exaustas ou concorrentes de revista. Ela atravessa um mundo em que o papel perdeu centralidade, a imagem circula em velocidade extrema e a influência se mede também por engajamento. A pergunta que o filme recoloca não é só quem manda na moda. É quem ainda consegue editar o desejo quando todo mundo publica ao mesmo tempo.

A sequência chega 20 anos após o filme original e desloca a disputa de poder para uma indústria editorial em transformação | Foto: Macall Polay / 20th Century Studios / CP

O figurino, claro, continua sendo uma das chaves dessa leitura. No primeiro filme, a moda nunca foi enfeite. Foi linguagem narrativa. Patricia Field construiu personagens por meio das roupas: Miranda como autoridade inacessível, Andy como alguém tentando decodificar um sistema e Emily como a tradução ansiosa de quem precisava estar sempre um passo à frente.

Agora, quem assume o figurino da sequência é Molly Rogers, colaboradora de longa data de Patricia Field, com a missão delicada de atualizar personagens que já nasceram icônicas. Em entrevista ao The Cut, Rogers disse que assumiu o projeto como alguém que testemunhou o primeiro filme de perto e precisava reinterpretar aquele código visual quase 20 anos depois.

Esse DNA nasceu de uma operação quase improvável. No filme de 2006, o orçamento oficial para figurino era de cerca de US$ 100 mil, mas Patricia Field conseguiu ampliar a escala visual da produção com a ajuda de marcas e designers, reunindo aproximadamente US$ 1 milhão em roupas para as atrizes. Na sequência, ainda não há um valor oficial divulgado para o figurino. O que se sabe é que O Diabo Veste Prada 2 tem uma estrutura de produção maior, com orçamento na casa dos US$ 100 milhões.

Mas não basta repetir a vitrine de luxo. Rogers atualiza esse guarda-roupa para um tempo em que moda também significa arquivo, rastreabilidade, imagem digital e valor simbólico. Entre os looks, estão peças como terno vintage Jean Paul Gaultier e bolsa Coach para Andy, vestido Gabriela Hearst com sandálias Chloé e bolsa Fendi, alfaiataria com botas Golden Goose, blazer Ralph Lauren Purple Label, bolsa Valentino, scarpins Prada, camisa e saia Sacai, além de vestido Monse usado por Simone Ashley. No novo filme, o luxo não aparece apenas como novidade, mas como curadoria.

Miranda Priestly reaparece como uma imperatriz em tempos de crise. No lugar de repetir literalmente a silhueta de 2006, o figurino desloca sua autoridade para ombros marcados, casacos estruturados e peças com presença quase arquitetônica. A própria Rogers contou à British Vogue que saias lápis e jaquetas curtas chegaram a ser pensadas, mas pareciam datadas demais para a nova fase da personagem. O caminho encontrado veio por meio de peças capazes de devolver a Meryl Streep a presença corporal de Miranda, agora em outro momento da indústria.

O vermelho também ganha força como código visual. Em entrevista ao The Cut, Rogers contou que, ao conversar com Meryl Streep sobre a personagem, a primeira ideia foi que “o diabo volta de vermelho”. A cor, em contraste com o cabelo branco de Miranda, reforça a presença de uma personagem que não precisa disputar atenção aos gritos. Ela ocupa o quadro. E, em 2026, ocupar o quadro é quase uma declaração política para uma editora que vê a própria indústria mudar debaixo dos saltos.

Andy Sachs, por sua vez, já não é a assistente em transformação. Ela volta marcada por uma vida de repórter, viagens, experiência e amadurecimento. A leitura de figurino acompanha essa trajetória. Segundo Rogers, Anne Hathaway conversou bastante sobre a vida jornalística de Andy, que deveria aparecer como rica em experiências, ainda que não necessariamente em dinheiro. Por isso, o visual mistura vintage, peças reaproveitadas, alfaiataria, coletes, gravatas e referências ao universo das redações antigas.

A alfaiataria e o menswear feminino ajudam a marcar a nova fase da personagem, agora menos aprendiz e mais dona da própria narrativa | Foto: 20th Century Studios / Divulgação / CP

Esse detalhe é precioso. Andy não volta como alguém tentando parecer fashion. Ela volta como alguém que absorveu a moda, mas não se tornou refém dela. A antiga virada das botas Chanel dá lugar a uma imagem mais autoral, feita de memória, peças garimpadas e uma elegância menos polida. A personagem não precisa mais provar que pertence. Ela veste a própria história.

E é justamente aí que o famoso “cerúleo” volta como memória e comentário. No primeiro filme, a cena do suéter azul virou uma das aulas mais populares do cinema sobre cadeia produtiva, desejo e influência: Andy achava que estava fora da moda, até Miranda explicar que aquela escolha também tinha sido decidida por um sistema.

Rogers contou ao The Cut que sua primeira ligação ao estúdio foi para perguntar pelo suéter cerúleo original, porque queria que ele reaparecesse no novo filme. A figurinista também comentou a presença de dois cintos cerúleos no início da sequência, uma referência discreta para quem conhece o código.

Emily Charlton talvez seja a mudança mais simbólica. No primeiro filme, ela era a assistente obcecada por Runway, pelo corpo certo, pela roupa certa e pelo lugar certo na hierarquia. Na sequência, ela aparece em outra posição de poder. Emily agora é uma executiva poderosa ligada à Dior, responsável por um orçamento de marketing do qual o futuro da Runway depende.

A antiga assistente da Runway retorna com figurino que traduz polimento, estratégia e presença corporativa | Foto: 20th Century Studios / Divulgaçã / CP

O figurino acompanha essa virada. Emily deixa de ser apenas a personagem ansiosa por aprovação e passa a representar o luxo como performance corporativa. Seu visual carrega polimento, impacto e consciência de imagem. Se Miranda é a autoridade construída pelo silêncio, Emily é a autoridade construída pela visibilidade. Ela entende o jogo do olhar, da campanha, da marca, da foto que circula. Em 2026, isso vale quase tanto quanto uma capa.

A sequência também apresenta Amari, nova assistente de Miranda, vivida por Simone Ashley, de Bridgerton. A personagem entra como um dos sinais mais claros de que a Runway não está mais em 2006. Em uma reunião com editores, é ela quem alerta Miranda sobre o que já não soa politicamente aceitável dizer em público. O gesto é pequeno, mas diz muito: em 2026, uma frase atravessada não fica restrita à sala. Ela pode virar recorte, reação, crise de imagem e ruído institucional.

No figurino, Amari também não chega como coadjuvante apagada. A personagem tem presença de moda e de geração. Vivida por Simone Ashley, usa vestido Monse e também aparece com uma camisa feita inteiramente de gravatas. O detalhe conversa com a estética de redação e com o menswear feminino que atravessa o figurino do novo filme, mas também reforça a posição da personagem como alguém que entende imagem, bastidor e reputação ao mesmo tempo.

Se Andy precisou aprender a linguagem da moda dentro da Runway, Amari já circula em um ambiente em que tudo é potencialmente fotografável, comentável e compartilhável. Ela não apenas assiste Miranda. Ela ajuda a mostrar que até o poder precisa ser editado para sobreviver ao presente.

Nessa sequência, a moda também fala de sustentabilidade e procedência. Andy aparece ligada ao vintage e ao reaproveitamento, enquanto a Runway continua sendo uma espécie de vitrine viva do mercado. A diferença é que, agora, luxo não significa apenas novidade. Significa história, curadoria, acesso e capacidade de transformar uma peça em narrativa.

O “cerúleo” do primeiro filme ensinava que nenhuma escolha estética era inocente. Em 2026, ele reaparece como fantasma elegante daquele discurso: não mais apenas como aula sobre tendência, mas como lembrança de que a moda continua sendo uma cadeia de decisões, valores e poderes. Em tempos de rastreabilidade, excesso de imagem e consumo vigiado, até repetir, guardar ou ressignificar uma roupa comunica posição.

O figurino volta a funcionar como linguagem narrativa, aproximando moda, curadoria, arquivo e mercado de luxo | Foto: Macall Polay / 20th Century Studios / CP

A força dessa continuação está justamente em usar a moda para falar de algo maior do que roupa. O filme observa mulheres que atravessaram duas décadas de mudanças no trabalho, na imagem, na comunicação e no poder. Miranda tenta preservar autoridade em uma indústria que perdeu centralidade. Andy retorna com a experiência de quem deixou de pedir licença para ocupar espaço. Emily transforma a antiga obsessão por pertencimento em domínio estratégico. E Amari surge como lembrete de que a nova geração já nasceu em um mundo em que reputação, linguagem e visibilidade caminham juntas.

Não se trata apenas de rever Miranda Priestly, Andy Sachs, Emily Charlton e Nigel em novos looks. Trata-se de olhar para uma história que nasceu no glamour das revistas impressas e retorna em um tempo em que todo mundo, de alguma forma, virou mídia. Jornalistas disputam atenção com influenciadores. Revistas disputam relevância com plataformas. Profissionais de criação convivem com ferramentas de IA. Marcas de luxo negociam poder com conglomerados, tecnologia e audiência. E o público, antes medido depois da publicação, agora interfere no caminho inteiro.

No fundo, O Diabo Veste Prada 2 chega aos cinemas como continuação, mas também como provocação. A pergunta deixou de ser apenas quem veste Prada. Agora é quem ainda consegue editar o mundo quando o mundo inteiro publica ao mesmo tempo.