Por que achar maquiagem para pele negra ainda é desafio

Mesmo com lançamentos frequentes no mercado nacional, a baixa oferta de tonalidades adequadas força a busca por produtos importados

Brasileiras autodeclaradas pretas e pardas representam 54,5% da população, segundo IBGE
Brasileiras autodeclaradas pretas e pardas representam 54,5% da população, segundo IBGE Foto : Magnific / Divulgação / CP

Novos produtos de make chegam às prateleiras a todo momento, mas boa parte deles não atende às diferentes necessidades das mulheres brasileiras. Com lançamentos recorrentes, o mercado nacional de maquiagem ainda não se conecta suficientemente com mulheres pretas e pardas.

O estudo “Black Paper”, feito pela Avon em parceria com a Grimpa em 2020, mostrou que 56% das 1.000 mulheres negras entrevistadas buscavam maquiagens importadas por falta de opções adequadas no Brasil. Dessas, 47% consideravam os produtos estrangeiros mais interessantes, enquanto 35% acreditavam que eles tinham mais qualidade; 17% delas encontravam tons compatíveis com a sua pele somente nas paletas de cores vindas do exterior.

Entre as mulheres negras no Brasil – que incluem pretas e pardas, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) –, a principal dificuldade encontrada na hora de comprar maquiagem é a falta de opções de base, corretivo e pó compacto – produtos que se relacionam diretamente à cor da pele. A estudante de Direito Estephany Alvelino, 27, reconhece esse obstáculo: “É difícil conseguir uma base que se adeque ao seu tom de pele quando você é uma pessoa negra”, afirma. “Mais difícil ainda é encontrar uma que não te deixe cinza após a aplicação.”

O aspecto acinzentado ao qual Estephany se refere é consequência de um produto não pensado para mulheres negras. É o que explica a CEO da DaMata Makeup Daniele da Mata, que presta consultoria e desenvolve testes de cosméticos e maquiagens em peles negras para marcas nacionais e estrangeiras: quando os produtos de maquiagem não correspondem à tonalidade da pele, provocam um efeito acinzentado, amarelado ou alaranjado no rosto.

Dificuldades em obter uma base com a cor adequada ou de precisar corrigir o efeito acinzentado de maquiagens são consequência da falta de entendimento da indústria nacional sobre o quão diversas são as peles negras. Existem, pelo menos, 38 subtons, segundo o sistema de classificação de peles negras feito pela estadunidense Jean E. Patton há 35 anos no livro “Color to Color”. A maioria das linhas de maquiagem lançadas no Brasil não possuem essa quantidade mínima de bases, por exemplo, fazendo com que muitas mulheres recorram à mistura de tons de base para encontrar a tonalidade ideal para seus rostos.

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Para além do tom da base

“Embora algumas marcas já possuam uma gama maior de maquiagem com tonalidades para diversos tons de peles negras, várias delas não possuem uma boa qualidade”, aponta a estudante Estephany. O problema também é notado pela stylist Marina Käfer, que percebe nos trabalhos em que atua as consequências de um produto mal aplicado: “A base pode escorrer na roupa, pode deixar o rosto pesado e marcado”.

A qualidade que deixa a desejar em maquiagens feitas para mulheres pretas e pardas é fruto da baixa representatividade negra nos setores de desenvolvimento dos produtos, segundo analisa a consultora e maquiadora DaMata. Para ela, apesar de campanhas de maquiagem trazerem pessoas negras, a área de produção não apresenta a mesma diversidade.

“Não tem nem pessoas pensando sobre esse produto, que são pessoas pretas, ou não tem nem pessoas na comunicação, que são pessoas pretas, para falar desse produto”, afirma. DaMata percebe a situação na prática, no relato das consumidoras, quando testa produtos de maquiagem por todas as regiões do País. “Elas gostam da marca, gostam do posicionamento, mas falam: ‘Poxa, não tem um produto ali… Eu nem consigo comprar’”, conta em relação ao déficit na oferta dos produtos fora de grandes centros e mercados de luxo.

O pouco compromisso com o estudo aprofundado da pele negra não só é observado pelas consumidoras, como muda a dinâmica de compra, conforme mostra Estephany. “Normalmente, as bases para pele negra estão sempre em falta, principalmente em lojas físicas”, aponta. “Para pessoas negras, o produto é escasso no mercado”, diz, principalmente sobre as bases que se adaptam à tonalidade do rosto. Para DaMata, a baixa oferta de produtos reflete o jeito de se vender no Brasil.

Um problema mais profundo

A priorização de produtos para peles brancas, segundo a consultora e maquiadora, está atrelada ao racismo estrutural que, ao mesmo tempo que privilegia o padrão de beleza europeu, desconsidera o poder de compra das mulheres negras. “Tem marcas que estão ganhando muito dinheiro atendendo esse público e tem marcas que ainda estão na mentalidade de que a gente não consome assim”, compartilha DaMata.

A procura pela indústria estrangeira de maquiagem surge como alternativa para obter qualidade e variedade. Apesar de utilizar muitas maquiagens nacionais, Estephany também usa, por exemplo, a base da Fenty Beauty, marca da cantora Rihanna. “A qualidade dos produtos ainda é muito inferior aos produtos internacionais para pele negra”, diz em relação à indústria brasileira.

Apesar disso, tanto Estephany quanto DaMata reconhecem que existem ótimas opções no mercado nacional que dão atenção às mulheres negras e apresentam bom custo-benefício. “Meu rímel, por exemplo, é da OBoticário, minhas bases são da Mary Kay, Fenty Beauty [marca estrangeira] e Panvel, meu delineador é da Avon [marca estrangeira] e meu contorno é da Quem Disse, Berenice?”, aponta a estudante de Direito. DaMata acrescenta Bruna Tavares e Natura à lista das marcas nacionais que oferecem bons produtos para mulheres negras, com base em estudos para marcas dos quais participou e testes e feedbacks das consumidoras.

Para DaMata, que vê na maquiagem uma forma de reafirmar a identidade e a cultura negra, a consultoria que presta às marcas no desenvolvimento de produtos tem o objetivo de incentivar o interesse da indústria nacional em maquiagem para peles negras e ampliar a oferta dos produtos fora dos ambientes mais elitizados. “Quero que a perfumaria tenha produto, a farmácia, o supermercado, a 25 de março”, revela. “Porque o público negro está em todos esses lugares. Acho que isso é o ponto que a gente tem avançado aqui.”

Para entender com dados quantitativos e qualitativos como o mercado de maquiagem no Brasil se relaciona com mulheres negras, o Correio do Povo entrou em contato com Avon, Boticário e Natura, mas, até o encerramento desta reportagem, não obteve retorno.

*Sob supervisão de Lisiane Mossmann