Considerada a maior semana de moda da América Latina, a São Paulo Fashion Week (SPFW) celebra 30 anos de história em 2025. Ao longo dessas três décadas, o cenário fashion brasileiro passou por uma revolução, proporcionando reconhecimento dentro e fora do Brasil para diversas marcas.
Sob o conceito “Futuros Possíveis”, a SPFW N59 aconteceu entre os dias 6 e 11 de abril, com 17 marcas, e reacendeu questionamentos sobre o propósito do evento. Depois de quase 60 edições, a audiência parece cansada da fórmula que Paulo Borges, idealizador e diretor criativo, tem explorado.
Durante o desfile de Walerio Araújo, o designer Raphael Fonseca foi vítima de agressão verbal e física por um casal de convidados na plateia. Procurada para comentar sobre as providências tomadas após o ocorrido, a organização não se pronunciou além da nota oficial publicada no Instagram. No comunicado, afirma “repudiar com veemência este tipo de atitude” e reforça seu compromisso com um ambiente respeitoso. Entretanto, o público rebateu o comunicado, exigindo que, ao menos, o ocorrido fosse considerado como mais que uma simples agressão, e sim, como um caso de racismo.
Com um número reduzido de marcas participantes, a temporada de outono/inverno 2025 teve mais da metade de seus desfiles apresentados dentro do JK Iguatemi. Diferentemente de outras edições, não houve venda de ingressos para o público geral, restringindo o evento apenas para convidados e parceiros. Esse novo formato, cada vez mais seletivo, levanta questionamentos sobre o esvaziamento do sentido artístico da moda e o enfraquecimento da proposta de democratização do acesso.
Apesar do discurso de que “a moda é, e sempre será, um instrumento de transformação social”, a controvérsia entre fala e prática se torna cada vez mais evidente. Um exemplo claro é a desigualdade de gênero: nesta edição da SPFW, apenas três dos 17 diretores criativos eram mulheres.
Inversão de prioridades
O evento que já foi vitrine para modelos brasileiras que almejavam uma carreira internacional, hoje opta por substituir profissionais qualificados (com formação e registro para a função) por influenciadores sem preparo técnico para a passarela. O alcance, o engajamento e a visibilidade se tornaram-se prioridade para as marcas, mesmo que isso custe o respeito e o reconhecimento de quem preza por uma trajetória na moda com disciplina e entrega.
A modelo gaúcha Evelin Weber deixou o mercado nacional justamente pelo sentimento de desvalorização no mercado. Com mais de 13 anos de carreira, ela relata uma rotina exaustiva de castings, fittings e contratos que exigem total dedicação. “Já fui modelo fitting durante três meses inteiros, onde eu ia todos os dias bater cartão para o cliente costurar a roupa no meu corpo e apresentar a coleção no fashion week”, conta, com frustração. Ainda assim, todo esse investimento pessoal muitas vezes é descartado em nome de quem entrega curtidas, e não domínio técnico da profissão.
Enquanto nomes como Gisele Bündchen, Alessandra Ambrosio, Adriana Lima e, mais recentemente, Luíza Perote e Laiza De Moura, brilham nas principais semanas de moda internacionais, muitas modelos brasileiras seguem enfrentando um cenário que não valoriza sua atuação local. A divergência escancara o distanciamento entre o talento que o Brasil exporta e a falta de espaço para quem tenta construir carreira no próprio país. “O valor está mais nas visualizações e curtidas nas redes sociais do que no profissionalismo do modelo”, resume.
Essa inversão de prioridades é ainda mais nítida quando influenciadores convidados para desfilar revelam, em vídeos de bastidores, que não há qualquer preparação antes de entrar em foco. Alguns mandam beijos, fazem brincadeiras ou acenos para a plateia. Enquanto isso, modelos de formação falam sobre manter a concentração, alinhar a postura, controlar a respiração e entregar a energia perfeita de acordo com a atmosfera do desfile. A passarela, para quem a vive profissionalmente, é espaço de técnica e presença, não de performance improvisada.
A modelo reforça que a crítica não está na inclusão de celebridades, mas na desproporção. “Eu não sou contra influencers, atrizes ou seja lá quem for desfilar como convidado, a gente tem isso em todos os lugares do mundo. O problema é quando metade do desfile são pessoas que têm fama e não se importam em como essa passarela será entregue.” Para ela, práticas como essas revelam um desespero pelo holofote que compromete não apenas a carreira de quem vive da moda, mas também a credibilidade e o futuro do evento.
Ao adotar o lema “Futuros Possíveis”, a SPFW parece mirar em uma moda mais plural e transformadora. No entanto, os episódios recentes mostram que esses futuros ainda não contemplam todos. Quando a diversidade se torna apenas estética e quando a inclusão não alcança os bastidores, o futuro prometido se distancia da realidade. A pergunta que permanece, então, não é apenas quais são os futuros possíveis para a moda brasileira — mas para quem, de fato, eles são possíveis.
*Sob supervisão de Camila Souza
