Uma em cada cinco gestantes brasileiras não recebe exames de pré-natal na forma recomendada. A constatação vem de estudo realizado por pesquisadores do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel), em parceria com a Umane.
A desigualdade no acesso e na permanência das sete consultas de pré-natal foram analisados pela pesquisa, que considerou aspectos raciais e de escolaridade. De acordo com o estudo, a cobertura é de 99,4% na primeira consulta e cai para 78,1% na sétima consulta. Os índices são piores entre mulheres sem escolaridade, indígenas, adolescentes e moradoras da Região Norte.
Desigualdade para mulheres indígenas
No recorte racial, a situação das indígenas é a mais alarmante: apenas 51,5% concluem as sete consultas de pré-natal. Entre as mulheres pretas e pardas, os percentuais aumentam para 75,7% e 75,3%, respectivamente, mas ainda são menores do que o das mulheres brancas, que alcançam 84,3%.
Entre a primeira e a sétima consulta, a cobertura entre mulheres indígenas cai 46,2 pontos percentuais (p.p.), o triplo da queda observada entre mulheres brancas (15,3 p.p.). Em quase metade dos casos, a gestante indígena começa o pré-natal, mas não termina.
Segundo Luiza Eunice, pesquisadora da UFPel e responsável pelo estudo, as gestantes indígenas sofrem uma série de dificuldades para realizar o pré-natal. "Para as mulheres indígenas, existem barreiras geográficas e logísticas, como transporte fluvial e distâncias longas”, aponta. “Há também barreiras culturais, com modelos de cuidado que não se adaptam às realidades indígenas", ressalta a pesquisadora.
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Falta de escolaridade influencia
Outra intersecção de destaque é a escolaridade. Entre mulheres com 12 anos ou mais de estudo, 86,5% chegam à sétima consulta. Entre as sem escolaridade, menos da metade chega ao mesmo ponto: 44,2%.
O recorte racial é revelador: entre as indígenas sem escolaridade, apenas 19% completam as sete consultas. Entre as brancas com 12 anos ou mais de estudo, esse percentual chega a 88,7%.
"Mulheres com baixa escolaridade têm mais dificuldade em entender a importância das consultas durante a gestação”, explica Luiza. “Há também barreiras práticas: transporte, trabalho e dificuldade para entender como o sistema de saúde funciona", pontua.
Frequência do pré-natal
Segundo a pesquisadora Luiza houve uma mudança recente na recomendação do Ministério da Saúde. Anteriormente a 2024, o número mínimo de consultas pré-natal recomendadas era seis, mas, a partir de 2024, esse número subiu para pelo menos sete consultas. A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de oito consultas.
Os exames ocorrem de forma distribuída ao longo da gestação porque atendem a diferentes propósitos, como explica Luiza. "No início, é importante identificar grupos que estão em alto risco; no meio da gestação, é importante para monitorar o crescimento fetal e, no final, detectar alguma doença e prevenir a prematuridade", afirma.
Luta pela garantia de acesso
Para a pesquisadora, um dos principais achados do estudo é que não é necessário apenas elevar o padrão de qualidade do atendimento, mas sim diminuir as desigualdades e garantir o acesso para todas as gestantes.
Luiza defende também políticas intersetoriais, que vão além da saúde para enfrentar as barreiras sociais, culturais e econômicas que afastam as gestantes do sistema. Entre essas barreiras, ela aponta o racismo estrutural, que afeta tanto a oferta quanto a qualidade do atendimento.
Para a gerente de investimento e impacto social da Umane, Evelyn Santos, esse tipo de análise é fundamental para identificar desigualdades e orientar o desenvolvimento de políticas públicas. "Com estas informações, a gestão pode atuar para ampliar a cobertura de pré-natal com foco nos grupos mais vulneráveis", destaca.
