Dermatite atópica: saiba como a mudança climática pode intensificar a condição

No outono, os cuidados com a doença de pele devem redobrados, já que o clima seco pode piorar os sintomas

Fatores ambientais e emocionais podem agravar as condições da doença
Fatores ambientais e emocionais podem agravar as condições da doença Foto : Freepik

A dermatite atópica é uma das doenças de pele mais comuns no Brasil e costuma ter seus casos intensificados durante as trocas de estação. Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), a condição afeta cerca de 7% dos adultos e entre 15% e 25% das crianças no país.

Apesar de alta incidência, o problema é pouco conhecido pela população. Um levantamento realizado pelo Datafolha, com apoio institucional da biofarmacêutica AbbVie, revelou que apenas 37% dos brasileiros reconhecem a doença. A falta de informação contribui para a perpetuação de mitos e preconceitos sobre a patologia, além de dificultar a busca por tratamento adequado e adesão a medidas preventivas.

Resultado da combinação entre fatores genéticos, ambientais e imunológicos, a dermatite atópica se manifesta através de sintomas que impactam profundamente a qualidade de vida dos pacientes.

Entre os sinais mais comuns estão:

• Coceira intensa, muitas vezes insuportável;
• Pele seca e escamosa, propensa a fissuras;
• Vermelhidão e inflamação persistente;
• Lesões e erupções que podem surgir em qualquer parte do corpo, especialmente nas dobras dos cotovelos, atrás dos joelhos e no pescoço.

A coceira intensa é considerada um dos sintomas mais debilitantes da doença. Piorando à noite, ela pode provocar um ciclo difícil de interromper: o ato de coçar agrava as lesões, que por sua vez provocam mais coceira, estendendo o desconforto.

Com a chegada do outono, esse cenário se intensifica. A estação marca um período crítico para quem convive com a dermatite atópica. A médica dermatologista Mariana Scribel explica que o ar mais seco e as temperaturas mais baixas prejudicam a barreira cutânea, intensificando o ressecamento e a sensibilidade da pele.

“Isso ocorre porque a umidade do ar cai, deixando a pele mais propensa à desidratação e ao contato com alérgenos, como pólen e ácaros, que também são mais prevalentes nesta época do ano”, explica.

A combinação entre vento frio e ar seco compromete a função da barreira cutânea, que é a camada protetora da pele responsável por manter a hidratação e impedir a entrada de substâncias irritantes. Como consequência, surgem crises mais severas e persistentes.

Fatores agravantes no cotidiano

Além do clima, outros elementos podem agravar a condição. O uso de roupas mais pesadas, como lãs e tecidos sintéticos, comuns no outono e inverno, pode irritar a pele sensibilizada. “Esses materiais podem irritar a pele sensível, desencadeando coceira e inflamação”, destaca a dermatologista.

A poluição do ar é outro fator de alerta. Um estudo recente publicado na revista científica National Library of Medicine aponta que poluentes ambientais, especialmente microplásticos, desempenham um papel significativo na modificação da barreira cutânea, tornando-a mais permeável e propensa a respostas inflamatórias.

Os microplásticos são partículas com menos de 5 mm, originadas da degradação de plásticos maiores, e estão presentes em todo o ambiente. Segundo Márcia Carvalho Mallozi, coordenadora do Departamento Científico de Dermatite Atópica da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), “eles foram detectados não apenas no solo e na água, mas também no ar que respiramos. Evidências recentes revelaram sua presença em locais preocupantes como sangue, leite materno e até mesmo na placenta humana”.

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O corpo como reflexo do ambiente

O estresse emocional também pode ser causador de crises. A liberação excessiva de cortisol, conhecido como o “hormônio do estresse”, pode suprimir o sistema imunológico e enfraquecer as defesas naturais da pele, agravando os sintomas da condição.

Conforme explica a dermatologista Mariana Scribel, “o estresse age como um catalisador para os sintomas da dermatite atópica. Quando os níveis de cortisol aumentam, a pele perde sua capacidade natural de agir como uma barreira protetora, tornando-se mais vulnerável a infecções e crises inflamatórias”.

Outro conceito para entender o impacto ambiental na saúde da pele é o expossoma, que é a interação entre os fatores externos e internos que moldam a resposta do organismo. Isso inclui o microbioma da pele, que, quando desequilibrado, permite que bactérias potencialmente prejudiciais dominem o ambiente cutâneo. “Esse desequilíbrio pode comprometer a integridade da pele e facilitar o desenvolvimento de doenças como a dermatite atópica”, completa Márcia Carvalho Mallozi.

A urbanização crescente, a industrialização e eventos climáticos extremos, como tempestades e queimadas, também contribuem significativamente para a deterioração da qualidade do ar e do ambiente, e consequentemente impactam a saúde da pele.

“Esses fatores combinados criam um cenário preocupante para a saúde pública, com a dermatite atópica emergindo como uma das doenças mais prevalentes em decorrência dessas mudanças ambientais”, finaliza Mallozi.

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Formas de prevenção e controle

Para prevenir e controlar a dermatite atópica, Scribel recomenda a hidratação frequente da pele com emolientes sem fragrâncias e a adoção de medidas que reduzam o contato com os agentes provocadores, como priorizar o uso de roupas de algodão e evitar produtos agressivos, optando por produtos hipoalergênicos e sem perfume.

A hidratação deve ser feita pelo menos duas vezes ao dia, especialmente após o banho, quando a pele está mais receptiva à absorção dos produtos. Além da hidratação, a dermatologista destaca a importância de procurar orientação médica para um tratamento individualizado.