Fibromialgia é mais comum em mulheres? Mitos e verdades

A síndrome vai além da dor, incluindo fadiga, ansiedade e depressão. Entenda os desafios do diagnóstico e o manejo multidisciplinar

Fibromialgia é estimada em cerca de 2% da população no Brasil e costuma ser diagnosticada com mais frequência em mulheres
Fibromialgia é estimada em cerca de 2% da população no Brasil e costuma ser diagnosticada com mais frequência em mulheres Foto : Freepik / Divulgação / CP

A fibromialgia costuma aparecer nas conversas como “dor no corpo”. Só que, para quem vive a condição, ela raramente vem sozinha. Além da dor crônica persistente, o quadro pode incluir fadiga, alterações do sono, rigidez, queixas cognitivas, ansiedade e oscilações de humor. Não é à toa que descrevem a experiência como cansativa em dois níveis: o físico e o social, já que os sintomas não são visíveis e, por isso, ainda são alvo de desconfiança.

Em números, a síndrome é mais comum do que parece. Revisões e estudos de referência apontam prevalência em torno de 2% a 4% na população, dependendo do critério usado e do recorte analisado. Segundo Marcelo Valadares, médico neurocirurgião e pesquisador de Neurocirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no Brasil, as estimativas mais citadas ficam por volta de 2% (em análise baseada em dados populacionais) e podem aparecer em faixas um pouco maiores em materiais de orientação de entidades médicas e do Ministério da Saúde.

É verdade que a prevalência é maior em mulheres? De acordo com Valadares, sim. Estudos apontam que sete a nove em cada dez pacientes identificados são do sexo feminino. Ao mesmo tempo, pesquisadores lembram que a proporção muda quando se olha para estudos populacionais com critérios mais recentes, o que sugere influência de vieses de diagnóstico e subnotificação, especialmente entre homens.

Para explicar por que mulheres aparecem mais nas estatísticas, Valadares cita hipóteses em investigação, como flutuações hormonais ligadas à sensibilidade à dor, fatores genéticos e aspectos psicossociais, como estresse crônico, ansiedade e depressão. Ele também menciona o papel de neurotransmissores, como a serotonina, associada à modulação da dor.

Mitos e verdades que atrapalham o cuidado

Verdade: dor é central, mas não é o único sintoma. A fibromialgia é uma condição complexa e pode incluir fadiga, distúrbios do sono, “névoa cerebral” e rigidez, com intensidade variável de pessoa para pessoa.

Mito: “é só psicológico”. O estresse e questões emocionais podem piorar o quadro, mas isso não resume a causa. O que se discute hoje é uma alteração na forma como o sistema nervoso processa sinais de dor, somada a influências genéticas, hormonais e sociais.

Verdade: pode afetar adolescentes e crianças. Embora o diagnóstico seja mais comum na vida adulta, há reconhecimento de que a síndrome pode ocorrer em outras idades, com desafios adicionais para identificar e descrever sintomas.

Verdade: o diagnóstico nem sempre é simples. Não existe um exame único que “carimbe” fibromialgia. A avaliação é clínica, exige boa escuta e costuma envolver a exclusão de outras condições com sintomas parecidos. Critérios diagnósticos mais recentes, como os do American College of Rheumatology, tentam padronizar a avaliação por meio de escalas de dor e gravidade de sintomas ao longo de pelo menos três meses.

Mito: tratamento é só remédio. O manejo tende a funcionar melhor quando é multidisciplinar. Valadares reforça a combinação de abordagens, que pode incluir fisioterapia, atividade física orientada (como pilates), terapia ocupacional, técnicas de relaxamento e mudanças no estilo de vida e na alimentação, além de medicamentos quando indicados.