Infarto em mulheres: risco aumenta entre 45 e 55 anos

Pesquisa da PUCPR com 4.896 pacientes do SUS de Curitiba identificou maior mortalidade feminina após infarto entre 45 e 55 anos

O Ministério da Saúde estima que ocorram cerca de 400 mil óbitos por ano em decorrência de doenças cardiovasculares
O Ministério da Saúde estima que ocorram cerca de 400 mil óbitos por ano em decorrência de doenças cardiovasculares Foto : Freepik / Divulgação / CP

Mulheres de 45 a 55 anos tiveram mortalidade maior do que homens da mesma faixa etária após infarto em uma pesquisa com 4.896 pacientes atendidos pelo SUS em Curitiba. Desenvolvido por pesquisadores da PUCPR, o estudo “Mulheres de meia-idade e mortalidade pós-infarto” acende um alerta para a vulnerabilidade feminina no pós-infarto em uma fase da vida marcada por mudanças hormonais e físicas.

A pesquisa analisou pacientes internados por infarto agudo do miocárdio na rede pública da capital paranaense entre 2008 e 2015. Após os critérios de exclusão, a amostra final reuniu 4.896 pessoas, com idade média de 62 anos. Do total, 34,1% eram mulheres. O seguimento médio foi de 50,9 meses e a mortalidade total da amostra chegou a 29,5%, com a maior concentração de óbitos no primeiro ano após o evento.

As doenças cardiovasculares seguem como a principal causa de morte no Brasil. Dados do Ministério da Saúde apontam que cerca de 400 mil óbitos ocorram por ano em decorrência de problemas do gênero, sobretudo por infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Por isso, entender de que forma idade e sexo influenciam o prognóstico ajuda a compreender um problema que ainda costuma ser tratado de forma ampla demais, como se homens e mulheres respondessem do mesmo modo ao evento cardíaco.

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No conjunto da amostra, as mulheres sofreram infarto em idade mais avançada do que os homens. A idade média feminina no momento do evento foi de 65,1 anos, enquanto a masculina ficou em 60,3 anos. Também houve maior proporção de mulheres nas faixas etárias mais elevadas, o que ajuda a explicar por que, de forma geral, elas apresentaram pior prognóstico ao longo do acompanhamento. Na análise multivariada, porém, apenas a idade, e não o sexo isoladamente, permaneceu associada de forma significativa à mortalidade.

“Persistem disparidades de gênero que afetam particularmente as mulheres”, afirma José Rocha Faria Neto, médico cardiologista, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da PUCPR e um dos autores do estudo. Segundo ele, de modo geral, as mulheres sofrem infarto em idade mais avançada e na presença de mais comorbidades. Ainda assim, no grupo da meia-idade aparece o que a literatura chama de “paradoxo de gênero”, já que essas pacientes tendem a apresentar menos fatores de risco que, em tese, estariam associados a um prognóstico melhor na população geral.

Esse é um dos pontos que tornam a pesquisa relevante. Em vez de confirmar apenas que a idade mais elevada piora o prognóstico, o estudo mostra que há um recorte feminino específico que escapa à lógica mais esperada. Embora as mulheres mais jovens possam reunir menos fatores de risco cardiovasculares clássicos, isso não significou melhor evolução após o infarto nesse grupo. É justamente essa contradição que reforça a necessidade de atenção clínica mais direcionada.

A discussão do trabalho mostra ainda que as mulheres tendem a receber com menor frequência terapias baseadas em evidências e tratamento de reperfusão. Também podem demorar mais para procurar atendimento hospitalar. Do ponto de vista vascular, os autores citam diferenças como menor calibre dos vasos, menor circulação colateral e menor pré-condicionamento isquêmico. Soma-se a isso o peso de fatores como depressão, estresse psicológico, declínio funcional e redução da qualidade de vida, especialmente entre mulheres com menos de 65 anos.

Para Faria Neto, a pesquisa deve ser lida como um alerta para o sistema de saúde. “Esses achados representam um importante alerta para a necessidade de abordagens clínicas diferenciadas e direcionadas a esse grupo”, destaca. Ele também ressalta que, no Brasil, especialmente no sistema público de saúde, ainda há escassez de dados sobre o tema e que a redução dessas disparidades entre os sexos exige investimento em educação médica continuada, maior compreensão das barreiras ao tratamento adequado e intervenções voltadas aos determinantes sociais da saúde.