O aumento do tabagismo entre mulheres no Brasil acendeu um novo alerta para especialistas em saúde. Segundo o Ministério da Saúde, os fumantes representam 11,6% da população, e o país registrou, pela primeira vez desde 2007, crescimento no número de fumantes adultos. O dado que mais chamou atenção foi a alta entre as mulheres, com avanço de mais de 2%, público que também aparece entre os maiores consumidores de cigarros eletrônicos.
Popularmente conhecidos como vapes, os dispositivos seguem proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas ganharam espaço com aparência tecnológica, aromas adocicados e forte presença nas redes sociais. Entre adolescentes, o avanço também é expressivo: dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, mostram que o percentual de estudantes de 13 a 17 anos que já experimentaram cigarro eletrônico saltou de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024.
Na prática, especialistas observam uma mudança de comportamento. Menos adolescentes fumam cigarro convencional, mas cada vez mais aderem aos dispositivos eletrônicos. O oncologista William Nassib William Jr., líder nacional da especialidade de tumores torácicos da Oncoclínicas, afirma que esse cenário representa um retrocesso nas estratégias de prevenção. “O surgimento dessa alternativa ‘moderna’ colocou décadas de combate ao tabagismo em xeque.”
Quando analisado o consumo recente, nos 30 dias anteriores à pesquisa, o crescimento entre estudantes também foi expressivo. Segundo a PeNSE, o índice passou de 8,6% para 26,3%.
Um dos pontos que mais preocupam os médicos é a capacidade viciante dos cigarros eletrônicos. Diferentemente do cigarro tradicional, muitos dispositivos utilizam sais de nicotina, uma formulação que facilita a absorção da substância pelo organismo e intensifica a dependência. Segundo a Associação Médica Brasileira (AMB), um único vape pode equivaler à quantidade de nicotina presente em até um maço de cigarros convencionais. Alguns modelos chegam a conter volumes ainda maiores.
Ao contrário do que muitos usuários de vape acreditam, os dispositivos não ajudam a abandonar o cigarro convencional. Um estudo publicado na revista Tobacco Control, liderado pela Universidade de Michigan, mostrou que jovens usuários frequentes de cigarros eletrônicos têm risco até 30 vezes maior de começar a fumar cigarros convencionais em comparação àqueles que nunca usaram vape.
No Brasil, um levantamento do Instituto Nacional de Câncer (Inca) também identificou que o cigarro eletrônico aumenta mais de três vezes o risco de experimentação do cigarro tradicional e mais de quatro vezes o risco de uso regular.
Para a pneumologista do Hospital Sírio-Libanês Elnara Márcia Negri, o contato precoce com esses dispositivos torna o cenário ainda mais preocupante. “Quanto mais cedo ocorre o contato com o dispositivo, maior a dificuldade de interromper o uso e mais intensos podem ser os impactos no desenvolvimento cerebral de crianças e adolescentes.”
Pulmão de pipoca
Os impactos do cigarro eletrônico não se limitam à dependência química. Segundo Elnara, eles podem acelerar danos ao organismo. “O vape é muito prejudicial, e suas lesões se instalam nos pulmões mais rapidamente que o cigarro convencional”, diz. “Apenas alguns meses de uso podem levar a lesões que o cigarro levaria vários anos para causar”, afirma a médica.
As doenças respiratórias estão entre os principais riscos associados ao uso de vape. Além do câncer de pulmão, quarto tumor mais frequente em mulheres no país e terceiro entre homens, e da asma, uma das condições que mais preocupam os especialistas é a bronquiolite obliterante. Conhecida popularmente como “pulmão de pipoca”, a doença é causada pela inflamação e fibrose dos bronquíolos, as menores vias aéreas dos pulmões, responsáveis por levar o ar até os alvéolos, onde ocorre a troca de oxigênio.
A inflamação intensa destrói essas estruturas e provoca uma obstrução permanente, que pode levar à insuficiência respiratória e, em casos extremos, à morte. O nome da condição surgiu após casos registrados em trabalhadores expostos ao diacetil, substância usada para dar aroma amanteigado a pipocas de micro-ondas.
O mesmo composto também é encontrado em líquidos aromatizados utilizados em cigarros eletrônicos. “Quando inalado, causa fibrose dos bronquíolos”, pontua Elnara. “A inflamação é tão intensa que destrói o revestimento dessas vias aéreas, levando a uma obstrução irreversível”, explica.
Os primeiros sinais de alerta costumam ser silenciosos, como tosse crônica, chiado no peito e falta de ar ao se esforçar, quadro que pode aumentar com o tempo. Em estágios iniciais, alguns danos podem ser revertidos, mas o diagnóstico tardio pode deixar consequências permanentes. “Os danos podem evoluir para câncer de pulmão, boca e bexiga, além de perda progressiva da função respiratória”, explica a médica.
Além de aumentar o risco de infecções virais e bacterianas, os cigarros eletrônicos também estão associados à Evali, lesão pulmonar relacionada ao uso desses dispositivos. O quadro pode provocar danos severos aos pulmões e até insuficiência respiratória aguda.
Para William, parte do risco está na falsa percepção de segurança criada em torno dos vapes. “O grande problema é que muitos jovens acreditam que estão inalando apenas vapor de água, quando na verdade esses dispositivos liberam milhares de substâncias químicas potencialmente tóxicas”, destaca o oncologista. Entre essas substâncias estão metais pesados como níquel, chumbo e zinco, liberados pelas baterias dos dispositivos, além de compostos potencialmente cancerígenos, como formaldeído e acroleína.
Riscos além da dependência química
Os impactos do uso de vape também não se restringem aos pulmões. Os dispositivos podem causar prejuízos ao cérebro em desenvolvimento, com efeitos sobre a neuroplasticidade. Áreas cerebrais relacionadas à atenção, memória e aprendizado podem ser afetadas tanto em adolescentes quanto em adultos.
Transtornos mentais também podem ser desenvolvidos ou intensificados pelo uso de cigarro eletrônico. Quadros de ansiedade e depressão, distúrbios de atenção, insônia e crises de pânico estão entre os exemplos citados por especialistas.
O uso de vapes ainda aumenta o risco de doenças cardiovasculares, segundo a pneumologista do Vera Cruz Hospital Isabella Peixoto. O consumo frequente contribui para o aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, além de elevar o risco de complicações como o AVC, em razão dos efeitos da nicotina sobre os vasos sanguíneos.
O cardiologista consultor da Libbs Jairo Lins Borges explica que a dependência da nicotina provoca alterações na circulação sanguínea. “A dependência da nicotina causa alterações na circulação sanguínea, favorecendo a formação de placas de gordura nas artérias e aumentando o risco de infarto e AVC”, diz. Segundo o médico, usuários desses dispositivos têm probabilidade quase duas vezes maior de sofrer infarto em comparação com quem não fuma.
Apesar de os efeitos do uso de vape a longo prazo ainda não serem completamente conhecidos, William afirma que os sinais já acendem um alerta. “Já existem indícios preocupantes de que eles podem ser tão ou mais nocivos que o cigarro convencional”, diz o médico. Para tratar o vício em vape, a orientação e o acompanhamento médico são os caminhos mais recomendados.
Tabagismo no mundo
Cerca de 7 milhões de pessoas morrem todos os anos em decorrência do tabagismo, que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), é uma das principais causas evitáveis de morte prematura. Dessas mortes, 1,6 milhão são de fumantes passivos, pessoas que não fumam, mas convivem regularmente com a fumaça do tabaco.
Fumantes somam 1,3 bilhão de pessoas no mundo. No Brasil, o crescimento recente entre adultos reforça a preocupação de especialistas com a dependência de nicotina e com a popularização de novas formas de consumo, como os cigarros eletrônicos. De acordo com um estudo do Inca, o país gasta anualmente mais de R$ 67 bilhões com despesas médicas relacionadas a doenças causadas pelo tabagismo.
Programa Inspirar acolhe fumantes e ex-fumantes
Diante da popularização dos cigarros eletrônicos e de outras formas de consumo de nicotina, iniciativas de acompanhamento ganham importância na prevenção ao tabagismo. Na Cabergs, o programa Inspirar oferece cuidado integral à saúde pulmonar de beneficiários tabagistas e ex-tabagistas, com foco no acolhimento de quem deseja parar de fumar e na prevenção de doenças respiratórias, como o câncer de pulmão.
Agora permanente, o programa inclui consulta médica para avaliação do grau de dependência à nicotina, exames complementares, encaminhamento ao pneumologista quando necessário e acompanhamento por equipe multidisciplinar. Também prevê subsídio de 50% em medicação específica prescrita pelo médico do programa, atendimento por telemedicina para beneficiários do interior e ações de rastreamento para ex-tabagistas, conforme critérios da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.
Para a pneumologista Caroline Freiesleben, responsável pelo programa Inspirar, da Cabergs, o primeiro passo é reconhecer que a dependência de nicotina precisa de acompanhamento. “Temos que lembrar que o tabagismo é uma doença, logo merece um acompanhamento médico adequado. Estamos disponíveis e à disposição enquanto médicos para ajudar. Há, inclusive, tratamentos disponíveis na rede pública de saúde com medicações que diminuem a ansiedade e a vontade de fumar”, orienta.
