O “dreno” de dinheiro para as apostas é apontado pelas entidades de comércio e varejo do Estado como um dos principais componentes da “tempestade perfeita” que atinge o setor. O vice-presidente de Integração da Federação das Associações Empresariais do RS (Federasul), Rafael Goelzer, estima que as bets retirem algo em torno de R$ 30 bilhões por mês da economia tradicional do país, números corroborados pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). “São valores que poderiam estar circulando como um todo, mas acabam indo para países que detêm as sedes dessas empresas e não são vinculados ao Brasil”, avalia.
A CNC traz números ainda mais impactantes: as apostas online podem ter levado 270 mil famílias à situação de inadimplência severa. De janeiro de 2023 a março de 2026, as bets retiraram R$ 143 bi do comércio varejista, volume equivalente às vendas dos Natais de 2024 e 2025, segundo a entidade nacional.
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) já havia emitido notas reafirmando “seu total apoio às iniciativas destinadas a apurar eventuais e comprovadas práticas em não conformidade com a legislação vigente” e que “eventuais mudanças nas regras de publicidade devem ser discutidas no âmbito federal, preservando a segurança jurídica e a previsibilidade regulatória de quem decidiu investir no mercado regulado brasileiro”.
Mesmo diante desses fatores de preocupação, há um cenário otimista, que passa, na visão das entidades comerciais, pela adaptação do comércio de rua, pelo uso responsável e criativo das ferramentas tecnológicas, sem esquecer o fator humano, e ainda pela busca de um diferencial competitivo por parte de quem empreende. Apesar dos desafios regulatórios e, no caso do Rio Grande do Sul, climáticos, a palavra-chave é persistência.
“O empreendedor brasileiro é extremamente resiliente. Nós temos empresários inteligentes, flexíveis e inovadores. Isso é uma saída”, comentou Goelzer.
“O empresário precisa fazer sua parte. Precisa também conhecer profundamente o consumidor, utilizar tecnologia, inteligência artificial, dados, canais digitais e transformar atendimento em vantagem competitiva”, entende o presidente da Federação das Câmaras de Comércio e de Serviços (FCCS-RS), Vitor Augusto Koch.
Já a Fecomércio-RS, que representa os setores de comércio de bens e serviços no Estado, prevê um cenário econômico “extremamente desafiador”. Segundo a entidade, as empresas gaúchas “têm passado por dificuldades sérias”, com juros elevados causados pelo “desequilíbrio das contas públicas”, além de haver “insegurança jurídica” e “aumento da já elevada carga tributária interna e tratamento favorecido para importações cross-border”, estabelecendo “uma injustiça concorrencial inacreditável”.
POP Center tem 352 lojas desocupadas
Quem hoje caminha pelo POP Center, no Centro Histórico de Porto Alegre, se depara com muitos portões fechados e uma sensação de esvaziamento de corredores, ainda que haja grande movimentação de consumidores. Dados da administradora do espaço apontam que a ociosidade das lojas está em 32,5%, com 352 espaços desocupados de 772 totais, agravado, em grande medida, pelas cheias de 2024, segundo o CEO do POP Center, Leandro Becker.
Em julho, o prefeito da capital, Sebastião Melo, sancionou a lei 14.573, que permite a ocupação do centro popular de compras por microempreendedores individuais (MEIs) e pequenos empresários, alterando legislação de 2006 que justamente criava os centros. “É uma oportunidade de ampliar a diversidade de negócios sem perder de vista a importância dos comerciantes populares”, disse Becker.
Porto Alegre, inclusive, teve saldo positivo de 81,5 mil novos negócios entre 2021 e 2025, com 142 mil aberturas contra 60,5 mil encerramentos, segundo o Sindilojas POA. Mas o enfraquecimento do varejo é notável: no ano passado, a cada novos 100 negócios do gênero abertos, outros quase 54 fechavam as portas. Quatro anos antes, eram cerca de 31. “Mais do que olhar para os negócios que encerraram, precisamos criar condições para que os novos negócios consigam se consolidar”, destacou o presidente do Sindilojas Porto Alegre, Arcione Piva.
Confiança empresarial em alta
Há, entretanto, esperança de dias melhores. Em julho, o Índice de Confiança dos Empresários do Comércio Gaúcho (ICEC-RS), da Fecomércio-RS, teve alta pelo segundo mês consecutivo, atingindo 91,5 pontos, ainda no patamar pessimista, abaixo da linha de neutralidade de cem pontos. O crescimento foi impulsionado principalmente pela melhora dos investimentos, que voltaram ao campo otimista, destacou a entidade. “A segunda alta consecutiva da confiança dos empresários do comércio pode indicar uma melhora gradual das expectativas para o setor”, disse o presidente do Sistema Fecomércio-RS/Sesc/Senac e IFEP, Luiz Carlos Bohn.
Recuperação
Ainda assim, segundo o monitor da RGF, o mês de julho de 2026 bateu o recorde de empresas do Rio Grande do Sul em recuperação judicial, com 728. No primeiro trimestre de 2023, no começo da série histórica medida pela consultoria, eram 272, e no segundo trimestre de 2024, mesmo no auge das enchentes, 433. O RS é, empatado com Goiás, Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte, o segundo estado com o maior índice proporcional de recuperações judiciais em curso por mil empresas, atrás apenas de Mato Grosso. Em média, uma empresa gaúcha estava, em julho, há pouco mais de três anos em recuperação.
Comércio
Quase 40% das companhias neste status eram de médio porte. Recortando apenas o comércio, eram 145 ao todo, terceiro maior contingente, atrás da agropecuária e da indústria de transformação. “O problema é bastante relevante proporcionalmente ao nosso Estado. O que acontece no Rio Grande do Sul vem a reboque do cenário nacional, porém temos outros desafios relacionados ao envelhecimento da população e à distância para os grandes centros consumidores”, afirmou Frank.