Animais deficientes e fragilizados eram usados para sensibilizar doações à protetora alvo de operação em Canoas

Investigação aponta que casos graves eram explorados para arrecadar dinheiro, enquanto eutanásias eram realizadas mesmo com possibilidade de tratamento

"Cão Dudu" foi resgatado pela Polícia Civil durante a segunda fase da Operação Carrasco
"Cão Dudu" foi resgatado pela Polícia Civil durante a segunda fase da Operação Carrasco Foto : Guilherme Sperafico / Especial / CP

Animais em estado crítico, com ferimentos visíveis e histórias de sofrimento, eram usados para sensibilizar doadores e impulsionar arrecadações em redes sociais para a protetora presa pela Polícia Civil de Canoas, por praticar eutanásias sem necessidade em animais.

Deflagrada na manhã desta segunda-feira, a Operação Carrasco tem como símbolo o cão “Dudu”, que era exibido pela investigada como caso de resgate por ter parte das patas dianteiras amputadas, enquanto a Polícia Civil apura se animais com perfil semelhante acabavam sendo levados à morte.

A investigação aponta que a estratégia consistia em expor animais debilitados para mobilizar doações via Pix, com a promessa de tratamento. No entanto, conforme apurado, parte desses cães e gatos, mesmo com possibilidade de recuperação, era submetida à eutanásia por decisão da principal investigada, a ex-secretária de proteção animal de Canoas, Paula Lopes. Ela foi presa nesta segunda.

Segundo o delegado regional Cristiano Reschke, o caso de Dudu ilustra o funcionamento do esquema. “Animais com esse perfil geram comoção e incentivam as pessoas a ajudar. O que identificamos é que, em diversos casos, o objetivo real era arrecadar recursos, enquanto os tratamentos não eram efetivamente realizados”, afirmou.

Ordem era executar

De acordo com a Polícia Civil, mensagens obtidas durante a investigação mostram que veterinários chegaram a sugerir exames e alternativas antes de qualquer decisão, mas recebiam orientação para seguir com a eutanásia. “Há registros claros de que, mesmo sem confirmação de diagnóstico, a ordem era executar. Isso agrava ainda mais a situação”, disse o delegado.

A delegada Luciane Bertoletti, responsável pela investigação, afirma que a prática era reiterada e estruturada ao longo dos anos. “Enquanto protetora, o interesse era exclusivamente financeiro. É um modo de operação que se repete, com utilização da imagem dos animais para captar recursos”, explicou.

Ela também destacou o impacto do caso. “Mesmo com anos de polícia, é algo que choca. Acho que nunca vi algo parecido, porque são atos cruéis. 
Eu diria que é uma assassina em série”, afirma.

A apuração indica que, desde 2020, foram realizadas centenas de campanhas virtuais, mobilizando milhares de doadores. Parte dos valores arrecadados era destinada a contas ligadas ao instituto da investigada e, posteriormente, transferida para uso pessoal.

Outros crimes e mais prisões

Além das suspeitas de maus-tratos, a investigação também aponta para crimes de estelionato e associação criminosa. Duas veterinárias que executavam os procedimentos também foram presas por participação no esquema, já que, segundo a polícia, tinham conhecimento das circunstâncias e ainda assim realizavam as eutanásias.

Além delas, um agente da Polícia Civil também é investigado, por supostamente, fornecer informações privilegiadas. Conforme o delegado, houve cumprimento de medidas cautelares para coleta de provas e, se comprovada a participação, o policial também deverá ser indiciado.

Resgatado durante a operação, Dudu agora está sob cuidados da Polícia Civil e deve ser encaminhado para adoção. O animal apresentava ferimentos nas patas amputadas por ter de se apoiar nelas, sem um apio adequado. Para a polícia, ele representa um ponto de ruptura. “Ele simboliza um momento de salvamento dentro desse contexto. Agora precisa de uma família que possa oferecer o cuidado adequado”, disse Reschke.

A Polícia Civil segue analisando o material apreendido para identificar o número de animais que podem ter sido vítimas do esquema. Foram realizadas pelo menos 549 vaquinhas, sendo que o Instituto já recebeu mais de R$ 672,6 mil, de 14,5 mil pessoas.

No ano passado, na primeira fase da Operação Carrasco, a ex-secretária também já havia sido alvo por, supostamente, ter autorizado práticas de eutanásia ilegal a cerca de 240 animais, enquanto estava à frente da pasta.

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