O que o Chico não pode falar



O fato de Chico ter sido dado de presente a uma família é um componente usual e traiçoeiro do tráfico: gostar da companhia e ter apego aos animais silvestres que são retirados do seu habitat natural para serem animais de estimação. Os primatas, por exemplo, costumam ser capturados ainda filhotes, em geral após a mãe ser abatida. Muitas vezes na queda da fêmea o filhote, que vem preso às costas ou barriga da mãe, também morre ou fica gravemente ferido, vindo a morrer mais tarde, sem cuidados.
Primatas, aves e até répteis, entre outros, são vítimas de maus-tratos mesmo por parte das pessoas que os querem bem, em virtude da falta de informação e da "humanização" desses animais.

Cabe salientar que primatas não são animais indicados para o convívio doméstico, em virtude de serem animais com potencial para causar sérios danos a pessoas, seja por agressão, seja por transmissão de doenças. Chico ocupa um espaço exíguo amarrado e privado da convivência com outros da espécie, o que sem dúvida configura maus-tratos.
Animais sociais, embora possam parecer bem adaptados ao cativeiro, sofrem com a limitação do espaço físico e, principalmente, com a privação da comunicação com o grupo, que é bastante complexa, envolvendo sinais visuais e auditivos.

Pretensos donos

Outro problema constantemente relatado em animais silvestres em cativeiro domiciliar é a inadequação do tratamento dispensado pelos seus pretensos "donos" no que se refere às condições climáticas, nutricionais e de espaço, ficando sujeitos ao estresse. Por mais dedicação que tenha o responsável por um macaco em cativeiro o animal nunca poderá dispor de uma riqueza de dieta comparável à que ele encontraria na natureza. Em vida livre os animais buscam e selecionam o seu alimento, conforme suas necessidades energéticas e nutricionais imediatas.

Em cativeiro há uma rotina de alimentação associada à rotina das pessoas que respondem pelo animal, o que naturalmente não corresponde às necessidades do animal. Alguns exemplos de alimentação inadequada constantemente fornecida a animais silvestres criados em cativeiro domiciliar são o fornecimento de macarrão, farinha, feijão, refrigerante, bebidas alcoólicas e doces em geral. Sal, frutas demais para folívoros (bugios). Primatas transmitem uma série de doenças, como febre amarela, hepatite tipo A, tuberculose, shigelosis, raiva, sarampo, leptospirose, klebsiellose, yersiniose, toxoplasmose, doenças fúngicas, malária e herpes, sendo esta última fatal para humanos.

O contato direto com humanos contraria todas as normas de manutenção de primatas em cativeiro. São questões técnicas e essenciais para entender que a preservação do meio ambiente passa pela conscientização das pessoas de que jamais vamos poder reproduzir em cativeiro a vida que esses animais teriam entre os de sua espécie. E quem gosta de animais não pode e não deve concordar com a sua prisão. É isso que o tráfico faz, como porta principal dessa questão que deve contar com a colaboração da sociedade. Se você gosta de animais procure vê-los na natureza e ensine seus filhos a respeitarem o meio ambiente dando exemplos e não adquirindo (isso inclui comprar e ganhar) pets de forma ilegal".

Jornalista Maria Helena Firmbach Annes - maria.annes@ibama.gov.br
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis