Campereada

A curiosa prosa das mãos

Uma mão não tem que ser envergonhar de lidar no pesado, de ter cicatrizes, já encontrei por aí muita mãozinha fina de calaveira e vigarista

Foto : Leonid Streliaev / Especial / CP

- Quem diria, minha irmã, que um dia você iria precisar tanto de mim como agora. Nós que fomos geradas juntas, eu lembro de você ainda lá no útero de nossa mãezinha, você era sempre a que se movimentava antes, mesmo quando ainda nem tínhamos nascido. Agitada, abanando, dando sinais que seria a predileta, a que seria mais utilizada. E agora aí, precisando de minha ajuda, isso eu nunca imaginava que pudesse acontecer um dia.

- Verdade, querida maninha esquerda, eu fiz sempre as coisas para nós. O Paulo é destro, então eu precisava fazer tudo, lembra? Era eu que segurava o lápis na primeira escola, era eu que brandia o facão cortando cana para as vacas leiteiras naqueles junhos de vento e frio, sempre eu que abotoava as camisas, tudo eu. E você aí, quieta, sempre sendo minha auxiliar é verdade, mas quem se cansava era eu. Os calos maiores onde eles ficavam? Em mim. Eu, agora confesso, às vezes tinha vontade de reclamar, mandar o Paulo te utilizar mais, mas sempre me calei. E quantas vezes quis te maldizer, mas fiquei calada, a vida toda. Quando ele tirava leite com dona Mirica, naquelas madrugadas chuvosas de inverno, lá na Vila Rica, eu ficava cansada, enquanto tu ali paradona, sem fazer nada, só segurando copos, talheres, pratos, deixando as tarefas mais pesadas para mim.

- Mas eu sempre quis fazer essas coisas que tu fazias, passei minha vida toda deixada de lado, sentia até vergonha de ser uma mão que não fazia o sinal da cruz, não apertava as outras mãos, não arremessava bolas nos jogos do colégio. Tu achas que foi fácil, foi um tormento no início, depois me conformei com essa condição. Eu sempre fui a outra, a que não tinha serventia, não prestava para nada, ou quase nada. O Paulo não tinha confiança em mim, e isso me entristecia. Agora, está aí, com dificuldades de se mover, segurar uma escova de dentes, um aparelho de barbear, um cabo de vassoura, tocar as cordas do violão...

- Nem me fale, minha irmã, desde que ele apareceu com essa doença, ando tão abalada e aborrecida, ele gostava tanto de tocar suas milongas, lembras? Tinha uma do Pedro Ortaça que ele treinou tanto tempo, sempre tocava antes de começar a escrever. Eu fico triste por ele, queria ajudar, mas não consigo, sinto-me impotente mesmo. Me dá raiva.

- Calma, não te apoquentes tanto assim, veja, por ter passado a vida te observando eu fui pegando o jeito, posso fazer tudo – ou quase tudo - que tu faz. Muita calma nesta hora, como dizem por aí. E tenho percebido que estás conseguindo, mesmo lentamente, a retomar alguns movimentos que até há pouco tempo tu tinhas parado de fazer. Estou errada, não tenho razão?

- Sim, isto é verdade também. Chega a ser comovedor o esforço que o Paulo tem feito, caminhando, melhorando a alimentação, parou de comer carne gorda, ingerindo menos açúcar e sal, fazendo academia, tudo para poder me dar melhores condições... Mas não é tão simples, é um processo lento. Tenho melhorado, inclusive, já parei de tremer como uma vara verde, reparaste?

- Claro, estou sempre aqui. Como dizia um antigo político, “juntos chegaremos lá.” Precisamos de união nesta hora difícil. Eu tenho impressão que você vai melhorar ainda muito mais, tu sempre foste muito guerreira, lembro de te ver trabalhando na mangueira, no campo, no bolicho, nas lavouras, recordo dos calos que tu escondias por vergonha e que, na verdade, eram um orgulho. Uma mão não tem que ser envergonhar de lidar no pesado, de ter cicatrizes, já encontrei por aí muita mãozinha fina de calaveira e vigarista. Você, minha irmã, é nobre e valente.

- Ah, não me faça ficar emocionada porque aí sim, começo a tremer de novo. E antes que seja tarde, vamos ajudar o Paulo, acho que ele, neste momento de sua vida está precisando de nós. Desculpe-me o trocadilho, mas temos que lhe dar uma mão...

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