A fazendeira - A primeira parte de um folhetim campeiro

          ?
         "Mas não é lindo isso tudo, Ananias?", pergunta a fazendeira
para o gato Angorá que está deitado sobre a cadeira de balanço de
trança fina. Estão na varanda da casa grande numa manhã de outono que
chegou clara. A várzea está verdejante e o gado Pampa pasta tranquilo.
Um outro lote, perto das figueiras, deitado, rumina e baba. De pé, a
mulher é uma figura esguia que veste uma calça bege, botas de
montaria, camisa branca, cinto de couro floreado e um gracioso boné de
feltro, além do lenço de seda. Apesar de ser agora uma mulher madura,
seu olhar permanece juvenil, com um brilho quente, esverdeado como
esses campos que conquistou ao longo dos anos. Contrariou a profecia:
jamais murchou.

         Foram esses olhos que fascinaram Toninho Almada naquele
distante verão em que se encontraram no CTG.  Ele estava à sua frente
e ficou olhando extasiado para seus olhos, oferecendo-lhe o lugar,
gentilmente. Ficou o tempo todo fazendo-lhe mesuras, elogiando. Ao
final da tarde, a convidou para conhecer sua fazenda no outro domingo.
Passara a semana nervosa, com uma ansiedade perceptível. Era uma
pobretona naquela época. Vivia com uma tia na cidade depois que os
pais morreram num acidente e deixaram-lhe uma pequena chácara. Mas era
jovem e bonita. A tia dissera-lhe: "Aproveite a juventude e sua
beleza, nós mulheres somos que nem rosas, ficamos lindas e cheirosas,
mas é por pouco tempo, depois murchamos."

         A fazenda dos Almada era esplêndida, a sede ficava sobre um
coxilhão e era vista ainda da porteira. Um grande açude ao lado e a
estradinha de terra era ladeada por plátanos. Toninho era apaixonado
por cavalos puro-sangue, tudo PSI, e à tarde mandou que um peão fosse
trazendo um por um para que ela os visse com seus pelos reluzentes,
quase todos zainos. Passearam de charrete pela estância e dois meses
depois ele a pediu em casamento. Ela estava encantada pelo  moço, mas
o que ela queria mesmo era ser como ele, ter posses, campos e animais.
Tentava não pensar nisso, mas era um sentimento que lhe invadia a
alma.

         Antes do casamento, começara a receber presentes. Os
convidados preferiram repassar diretamente para ela, afinal Toninho
era um rapaz rico. Mas isso se mostrou um erro fatal. Uma semana antes
da data, quando tudo estava praticamente pronto, ela desfez o
matrimônio, alegando que não o amava mais,  mas não devolveu os
presentes.  Eram muitos e valiosos. Foi viajar, deixou tudo para um
advogado administrar. Voltou dois anos depois. E isso foi só o começo
de uma longa história.          (Continua...)