A fazendeira - Confira a terceira parte do folhetim campeiro

         A noite era escura. A lua minguante às vezes alumiava um pouco aquelas paragens lúgubres à beira da restinga grande. Ao pé do tarumã, uma nuvem envolvia seres esqueléticos que se arrastavam, grunhiam, choramingavam, imploravam com as mãos levantadas, ou o que pareciam ser elas, por salvação e piedade. A fazendeira, impávida, ergueu a cruz que carregava no bolso,  proferiu algumas palavras e os fantasmas, amedrontados, desapareceram.

         Os peões a tinham deixado sozinha. Eram supersticiosos e seus corações estavam infestados pelo medo. Ela havia dito para não olharem, que era tudo miragem, fruto da imaginação,  mas eles não acreditaram.  Então deu de mão na pá e na picareta e começou a cavar. Com a ajuda das lanternas e dos candeeiros a querosene observou um ponto mais escuro, perto da raiz mestre da árvore e se concentrou ali. As horas passaram e finalmente a cavadeira bateu num grande jarro de barro. Com ajuda de uma alavanca comprida, ganchos e até de uma roldana,  o retirou para fora. A tampa estava lacrada. A marretadas estourou o vaso e confirmou suas suspeitas. Dentro estavam intactos e brilhantes, correntes, colares, coroas, pingentes, moedas,  crucifixos, diademas, braceletes, adagas, punhais e uma infinidade de joias e até algumas peças de prata e ouro de santos missioneiros. Lentamente, retirou um a um os objetos, acomodou-os dentro de um baú e depois os levou para o carroção pouco antes do amanhecer.

         Era determinada, sem medo nem receio. Aquela área tinha sido um local de criação de gado dos padres jesuítas. Estes, logo após a morte de Sepé Tiaraju, defendendo os Sete Povos, juntaram o que puderam e se bandearam para o outro lado do grande rio. Muitas coisas não puderam carregar e as enterraram pelo caminho. E agora parte desse tesouro estava nas mãos dessa mulher que nascera para o triunfo.  Tinha fibra suficiente para encarar desafios, passar por cima de adversidades, tourear a sorte e beijar a morte na boca. "Não murcho nunca", dizia só para contrariar a profecia da tia que a criara.

          Agora, passados tantos anos, olha para o açude, vê a parelha de cavalos preferidos e lembra daquela noite que encontrou o tesouro missioneiro. Ficara ainda mais rica. Ganhara mais fama por toda a costa do rio, em outras regiões. Essa fama trouxe para si Zeca Negrinho, o domador.  Era um sujeito zombeteiro, de melenas negras compridas, campeão de rodeio.  Diziam que era tão bom ginete como amante ardoroso. Por isso, num domingo, ela o levou para casa. (Continua)