Os dias de outono se escoam lentos, preguiçosos como o gato Ananias, enrodilhado a seus pés. Agora, depois do almoço, a fazendeira está sentada numa cadeira de vime, na varanda, mirando seus horizontes. Lê "A Morte em Veneza", que lhe traz recordações. Após terminar com Toninho Almada, passou por Porto Alegre e, um mês depois, voou para o Rio de Janeiro. Foi na entrada de um cinema em Copacabana que conheceu James, um inglês em férias. Era maduro e gentil, e comprou seu ingresso. Mais tarde, foram jantar no Lamas, no Largo do Machado. Ele estava hospedado num hotel nas redondezas.
James dirigia os negócios de uma empresa britânica em São Paulo. A história deles começou nessa noite do cinema e se estendeu para o hotel, depois para praias do Nordeste e, na sequência, para uma viagem à Europa. Ela jovem e ambiciosa. Foi brindando com champanhe numa gôndola de Veneza que ganhou o primeiro grande presente: um apartamento em Roma. Depois, em Florença, apreciando um vinho, ele assinou um cheque, ao mesmo tempo que lhe entregava uma caixinha com um lindo colar e um par de brincos de ouro. Nessa altura, ela já sabia que ele era casado e estava obtendo dividendos com a descoberta.
Antes de voltar, quis visitar Lisboa e a cidade do Porto. Na capital portuguesa ouviram fados, passearam pela Alfama e degustaram comidas típicas nas tascas. No Porto, curtiram as sangrias nos bares da "Beira" do rio Douro. Admirando a cidade da outra margem, ao lado das caves de Vila Nova de Gaia, ela decidiu voltar. Já não era mais aquela guria pobre. Com os presentes que recebera para o casamento não realizado com Toninho Almada, mais os mimos de sua relação com James, poderia se tornar uma fazendeira. Sonhava olhar para vastos campos verdejantes e dizer que era seu. De fato. Ter dinheiro e poder, ser respeitada. Fazer o que quisesse sem que ninguém falasse nada.
O inglês esperneou, ameaçou. Mas ela tinha um trunfo, se ele a importunasse ela o denunciaria à Polícia, pois sabia de seus negócios escusos. Então voltou e comprou sua primeira propriedade, uma estranha fazenda nas Missões. Uma área grande, com boas pastagens e aguadas, mas havia uma aura de mistério em torno dela, de fantasmas e de assombrações. Então a adquiriu à vista e por um bom preço. Vieram novas aventuras e acontecimentos incríveis. "Ah, Ananias, tu tinhas que estar comigo naquela época", falou para o gato. O olhar de Ananias não transmitia interesse nem desprezo. Apenas desdém. (Continua)
