A fazendeira - Parte final do folhetim campeiro

         No Sul as noites de outono repontam silêncios que penetram na alma. Parecem versos mastigando saudades e chuvas em rebojos de encantamentos. Um tremor arrepia a pele da fazendeira quando recorda das tantas noites tórridas que passaram, ela e Zeca Negrinho, esquecidos da vida, bêbados de paixão. Ah, como se amaram, mas depois ele decidiu administrar os negócios dela e isso a incomodava.  Percebera que ele era igual a ela. Tinha ambição e ria, debochado e insinuante. Gostava de homens impetuosos,  mas alguns anos depois enjoou. Ele era viciado em seu mundo de rodeios, mulheres e jogos. Então ao chegar em casa numa madrugada encontrou suas coisas emaladas.  O ex-domador sempre fora orgulhoso, por isso não dissera nada, apenas mandou-se à la cria. Mas estava  remediado, ela sabia. Daquela relação havia herdado boa quantia, diziam que tinha até uma estância e uma bela ponta de gado.

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         Toninho Almada levara um bom tempo para se recuperar do golpe. Ser enganado pela noiva foi como um espinho ter se cravado em seu coração. Mas o tempo curara a ferida.  Um certo dia, enquanto vendia dois puro-sangue para um carreirista da Capital, não desviou o olhar de uma linda morena que acompanhava o pai.  Era veterinária a guria, ainda tão jovem, e gostavam das mesmas coisas. Casaram e tiveram dois filhos. Foram aquilo que as pessoas classificam de uma família feliz. Candice, no entanto, não pode acompanhá-lo para sempre. Foi vítima de uma doença rara que afetou-lhe os ossos , o sangue e, apesar de todos os esforços, morreu em seus braços num agosto de aguaceiro e ventania.  Guardou luto e noutro domingo, noutra carreirada,  reencontrou os olhos de seu primeiro amor. Relutou e jurou que nunca lhe daria perdão. Mas o amor é gambeteiro, ladino e traiçoeiro. Ou não?

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         O domingo de setembro chegou claro e cheiroso, as flores do jardim bailavam inquietas. Helena acordara alegre e dentro de seu vestido estampado olhava a várzea estendida. Ligou o rádio, pediu o mate e contemplou, sorridente,  o gato Ananias deitado sobre o pelego. Foi então que escutou o ronco para os lados da porteira. Firmou a vista e viu uma camionete que cruzou a taipa do açude e parou em frente à varanda. Toninho Almada parecia o mesmo de bombacha de favos e casaco de linho. Foi ao seu encontro. Junto à casinha do casal de barreiros ficaram se olhando, quietos, como fizessem parte de um destino que agora fechava o ciclo. Depois se beijaram e a fazendeira proferiu só uma e derradeira palavra:

         - Entre.       

         (Fim)