A instigante e bela arte de juntar gravetos
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A instigante e bela arte de juntar gravetos

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A vida, embora dura e curta, também é linda. Era o que sempre me dizia Almerinda, a dona Mirica, minha mãe, naquelas tardes cinzentas de inverno, enquanto tomávamos café com bolinhos de chuva. Aquelas mãos calejadas eram exímias em acariciar meus cabelos e, principalmente, fritar aquelas verdadeiras maravilhas campeiras tão minúsculas. As duas coisas eram tão doces que nunca esqueci, da mãe e dos bolinhos. Depois, buscava as vacas de leite, separava os terneiros e logo seguia a cumprir a tarefa mais instigante: catar gravetos para principiar o fogo do fogão a lenha na manhã seguinte. Eu fazia isso todos os dias, no inverno, no verão, na primavera, no outono, com sol ou com chuva. Sempre, dia sim e no outro também....

Não sei se por isso, mas aprendi a reparar desde piá nas coisas pequenas, simples, na importância dos pedaços, daquilo que em princípio não tem mais serventia, mas faz uma falta danada. Eu tinha um saco de estopa e um pedaço de sovéu com argola na ponta. Dava de mão no saco e saia despacito, olhos fixos no terreiro, por entre as árvores, na encosta de morrinhos, dentro de valões, buracos, em todos os lugares tinha algo para recolher. Eram cascas e folhas secas,  galhos quebrados, pedacinhos de madeira. Fazia um montinho daquilo tudo, cruzava o saco e atava com o sovéu, jogava nas costas e rumava ao galpão, onde com um facão, fazia um picado de gravetos para a mãe principiar o fogo e o resto deixava num canto para servir de lenha normal ou mesmo para fogo de chão nas matanças de porto ou para o churrasco de fim de ano.

Nessa lida de infância aprendi a valorizar os pequenos e humildes, a escutar os que não têm voz. Prestar atenção. Um fogo não se faz apenas de cerne de angico. Não basta termos os "guarda-fogo", grandes toras, pesadas e vistosas, elas sozinhas não são nada. Tente acender um fogo com um palito de fósforo diretamente num pau de guajuvira. O senhor vai gastar caixas e mais caixas de fósforos e  nada. Não consegue fazer fogo grande, braseiro. É preciso raminhos e pequenos gravetos para se começar um fogo de lei. Então, sem querer, me dei conta que não precisamos de muito poder, dinheiro ou cargos para termos importância nessa grande engrenagem da vida. Os pequenos, juntos, ficam fortes. Cada um de nós cumpre o seu papel. Aprendi a respeitar o peão caseiro, o tropeiro, o changueiro,  o alambrador, o fazedor de poços, o marceneiro, o bolicheiro, o domador de cavalos, a parteira, a cozinheira, o tratorista, o pequeno agricultor, o gaiteiro, o trovador, as crianças que nada sabem, os animais, tudo e todos.  Se eles não eram grandes, eram muito importantes. Assim, segui pela vida inteira até chegar aqui, onde me tornei um escrevinhador das coisas regionais, resgatando os perdidos da memória.

Muitas vezes, confesso, me senti assim como aqueles gravetos da infância, aos pedaços, perdido de mim. Porém, juntei-os novamente, alma e couro, e fiz de meus sonhos despedaçados não uma trouxa para carregar nas costas, mas gravetos que viram faíscas, depois labaredas e, então, o breu se transforma numa noite iluminada...