A surpreendente história da ovelhinha Bibi

Ao terminar de ler a mensagem compreendi tudo. Quando fui fazer faculdade em Santa Maria, a mãe fez questão de que eu levasse o meu pala e ainda um coberto que certamente foram feitos com a lã da Bibi.

Pala de lã
Pala de lã Foto : Paulo Mendes / Especial / CP

Nesta minha carreira de cronista campeiro, poucas vezes me emocionei tanto quanto nesta semana ao receber um e-mail de um leitor surpreso com o texto da semana passada. Nele, eu contei a história da ovelhinha guaxa Bibi, que criei desde que nascera, dando leite numa garrafa. Quando a Bibi cresceu, o pai a vendeu para um amigo que tinha uma fazendola para os lados de Tupanciretã. A intenção era que eu não sofresse vendo a minha mascote ser sacrificada ou vendida para um friforífico. Ela estava grande, não podia mais viver dentro de casa e não queria estar no campo.

Ocorre que esta semana recebi uma mensagem que me comoveu: “Caro escritor Paulo Mendes, me chamo Gilberto Aparecido Pereira da Silva, moro atualmente em Santa Maria, mas quando guri vivi em Tupanciretã e meu pai, Epaminondas José da Silva, tinha uma propriedade na localidade do Abacatu. Ele era muito amigo de seu pai, o seu José Mendes, e da sua mãe, dona Mirica. Neste fim de semana, meu filho mostrou-me um crônica sua que me reportou à minha infância e cheguei a chorar de emoção quando descobri que a ovelhinha que o senhor fala foi para nossa casa e láq viveu muitos anos.”

E prossegue. “Lembro que um dia o pai chegou com uma ovelha dentro da camioneta e disse. Ela se chama Bibi e foi criada guaxa pelo Paulinho, do seu Mendes. Vamos cuidar bem dela. Como é mestiça Corriedale, vai dar muita lã, vou pedir para Terezinha cardar e fazer um pala bem bonito para o guri vestir no inverno. E assim foi feito senhor Paulo. A mãe, um ano depois, fez um pala e nós o levamos até sua casa. Eu estava na camioneta, na época deveria ter uns dois ou três anos mais velho do que o senhor. Em determinado momento eu o vi saindo de casa vestindo o pala novo brincando com os cachorros, muito faceiro. Queria dizer, seu Paulo, que a Bibi durou muito tempo, teve várias crias, e sempre dava muita lã, e morreu de velha numa entrada de verão. Com o abraço do amigo Gilberto.”

Ao terminar de ler a mensagem compreendi tudo. Quando fui fazer faculdade em Santa Maria, a mãe fez questão de que eu levasse o meu pala e ainda um cobertor que certamente foi feito com a lã da Bibi. Ela nunca me falou nada, nunca me contou nada, mas por alguma razão eu nunca me desfiz nem do pala nem do cobertor, que mantenho até hoje. E agora, passados tantos anos, venho obter a informação, por causa de uma crônica despretensiosa, de que passei minha vida toda sendo agasalhado pelos velos e fios cardados da minha querida guaxinha Bibi, que já pensava perdida.

Obrigado seu Epaminondas, Gilberto, dona Terezinha, a artesã, por terem me proporcionado esta alegria. É dessas coisas que a minha alma campesina precisa, é por elas que este coração interiorano segue batendo no compasso. Agradeço ao centenário Correio do Povo mais este presente, pois sei que só pelo jornal esta linda história seria contada e compartilhada.

Aqui estou olhando o velho pala que até hoje anda comigo. Ah, meu palinha tão antigo, quando te visto não sinto frio, só uma saudade atroz de todos os bichos que cuidei, pois foram mesmo eles os meus melhores amigos.

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