A vida é uma peleia das buenas

Estou tranquilo, e como sempre digo, não tive medo de nascer, não terei medo de morrer. Isso, inevitavelmente, vai ocorrer, mas acho que não será agora

Porteira com cabeça de cavalo e sombra
Porteira com cabeça de cavalo e sombra Foto : Leonid Streliaev

Este é um dos textos mais difíceis que já escrevi neste espaço, desde 30 de agosto de 2009, quando começamos a publicar aqui neste espaço as “Campereadas”. Já havia pensado em escrever, mas precisava esperar, ter certeza do que iria informar. Depois de ter superado a Covid-19, em 2020, agora vieram me dizer que estou com a Doença de Parkinson. Já vinha suspeitando disso, pois de um tempo para cá comecei a ter uma certa rigidez no braço e na mão direita. Depois, quando começaram os tremores, me preocupei e fui procurar os médicos. Exame daqui, exame dali, veio aquilo, o diagnóstico difícil de se ouvir. Confesso que no início tive um estremecimento no corpo, um medo sorrateiro, mas logo me recompus e já ali mesmo comecei a encarar a realidade com seriedade, responsabilidade, mas sem vitimismo ou depressão.

Talvez fortificado pelas diversas conversas com o psiquiatra Luigi Pesseto, que me ajuda desde o tempo da Covid, fui em busca de tratamentos, fui lendo e ouvindo a voz da medicina e seus profissionais, além do conforto espiritual da santinha de Fátima. Devo dizer a todos os leitores que não se apavorem, estou sendo bem tratado, seguindo as orientações da neurologista Sheila Trentin, que me deu muita esperança e até afirmou, categoricamente, que voltarei até a tocar minhas milongas no violão. Eu também acho que vou continuar fazendo tudo o que fazia e, agora, realizando ainda melhor, porque a doença que apareceu virou uma inimiga potente, e, diante de uma situação assim, o ser humano cresce, se mobiliza, se reorganiza.

Não sei como será o futuro. Pode ser que a doença estanque, evolua lentamente, de uma forma controlada. Mas há sempre o risco de alguma coisa piorar, mas isso não é cogitado no momento. Os médicos destacam os avanços recentes dos tratamentos, as pesquisas, tudo coisas que animam e reforçam a vontade de resistir. Estou tranquilo, e como sempre digo, não tive medo de nascer, não terei medo de morrer. Isso, inevitavelmente, vai ocorrer, mas acho que não será agora. Também irei me esforçar para ter uma boa qualidade de vida, manter os movimentos básicos, caminhar, ter força e equilíbrio, não ter enrijecimento da face, falar normalmente e conseguir deglutir os alimentos.

Para obter tudo isso, com uma doença grave e degenerativa, é preciso mudar muitos hábitos de vida. Deixar de lado definitivamente a vida sedentária e se atracar na “física”, como dizia meu pai adotivo José Mendes. Manter uma alimentação saudável, dormir bem, beber álcool o mínimo possível e, quando der vontade, apreciar uma boa taça de vinho Malbec, porque ninguém é santo e também sou filho de Deus. Ainda, manter a medicação correta para parar o tremor, meditar, evitar o estresse desnecessário, se cercar de amigos leais, ficar ativo e ter planos e projetos. Queria agradecer, ainda, aos doutores Fabiano Ramos, Jorge Felizardo, Jefferson Becker e Mario Schorr, que me ajudaram nesta empreitada

É isso, meus amigos e minhas amigas, vontade não me faltará. Desde piá aprendi a enfrentar desafios, a lutar, a olhar cara a cara as adversidades físicas e subjetivas. Como muitos de vocês. Encaro tudo como uma nova peleia, porque a própria vida é uma peleia das buenas, difícil por certo, mas bonita de ser peleada. Porque nunca estaremos sozinhos. Tem uma legião de guerreiros do meu lado, alguns conhecidos desde criança, familiares e muita gente que conheci há pouco tempo. Pessoas que conheço bem e outros que nunca vi, mas lá no fundo sinto que me dão força. Eu sei que esta energia será vital para o escritor, para o meu trabalho e para toda a gente e a história do nosso Estado que tento honrar a cada semana.

Seguiremos defendendo o regionalismo e dando voz à gente do campo. Lembro um verso do Martin Fierro: “Não saio nunca dos trilhos nem que venham degolando...”