Amigos e rios

Como a vida seria triste se não tivéssemos amigos. Falo desses verdadeiros, dos que tiram a camisa e te alcançam

Rio Uruguai, na fronteira do Brasil e Argentinha
Rio Uruguai, na fronteira do Brasil e Argentinha

A melhor coisa no amigo é que ele você escolheu, não foi imposto. Por algum motivo ou afinidade, vocês se encontraram, gostaram do convívio, riram das mesmas coisas e decidiram ser “compadres”. Como a vida seria triste se não tivéssemos amigos. Falo desses verdadeiros, dos que tiram a camisa e te alcançam. Que abrem a casa para te receber, te amparam naquele dia ruim, um dos piores da vida, em que todos te deixaram sozinho e o amigo foi lá te dar uma mão. Amizades surgem do nada, que são o tudo. São pequenos gestos, uma palavra, algo que a gente pensa, puxa, esse aí é um sujeito que parece ser um bom amigo. Daí tu retribui com outro gesto e tudo começa.

Falo disso porque estive, outra vez, em um novo encontro de almas no Festival da Barranca, em São Borja. Lá tem de tudo, principalmente música, mas o que a gente curte mesmo é a reunião de fraternos amigos, os abraços, os dias juntos, rindo, se divertindo, recitando poemas, tocando e ouvindo gaitas, provando comida campeira num acampamento onde todos são iguais, nem ricos nem pobres, nem pretos, brancos ou índios. Tudo misturado e regido pelo respeito mútuo. Fui levado para a Barranca em 1991, pela mão do Sergio Jacaré. Depois fiquei afastado vários anos e, em 2023, voltei. Havia passado por um episódio de quase morte, precisava encontrar velhos amigos. Só não esperava fazer tantos novos. Lá, uns me reconheceram, outros não, mas todos me acolheram.

Alguns partiram. Porém, a Barranca os mantém vivos dentro de nossos espíritos, porque sabemos que estão lá, todos eles, todos os anos. É preciso salientar o trabalho cultural desenvolvido pelo Grupo de Arte Os Angüeras, que promove a Barranca. De uns anos para cá, foi introduzida a Caravana da Barranca, um grupo de artistas que sai de Porto Alegre e realiza shows gratuitos em várias cidades do Estado, sempre na Semana Santa, antes do início oficial, na quinta-feira. Este ano teve apresentações em Santiago, Santo Ângelo e São Borja. Trata-se de uma tradição e um rito de louvor à arte, mas principalmente, à amizade. E uma confraternização como esta tinha que ser na costa do rio Uruguai, místico e mítico. Porque um amigo é uma pessoa, como um rio, ambos mudam constantemente, mas permanecem sempre os mesmos. O rio de Heráclito, para provar que os gregos sempre tiveram razão.

Um dia antes de morrer, meu pai biológico ficou meu amigo. Antes era apenas um pai. Mas naquela manhã em que o levei ao banheiro do hospital onde estava internado, nos meus braços fortes de guri de 18 anos, caíram as nossas barreiras. Ele já não falava, mas me olhou como um amigo e seu olhar disse tudo o que ele deveria ter me dito antes, mas não pode dizer. Mas bastou. Foi pouco tempo, mas valeu a vida.

Fiz amigos atendendo no bolicho, no colégio, na faculdade e no trabalho. Fiz amigos como jornalista. Tenho muito orgulho de todos eles, mas não precisamos de muitos, mas de bons e valiosos. Na verdade, basta um amigo leal para nos puxar pela mão quando estamos nos afogando. Tá bem, dois. Vamos lá, três. Quatro, cinco? Será que dez? Não importa, basta um deles estar por perto. Ah, outra coisa, amigo não precisa estar sempre a teu lado, pode viver longe, mas tu sabes que quando o encontrar será como antes. Matear com ele, e a cada gole sentir a água aquecendo a alma, como um rio de verdejante eternidade.