Campereada

Campereada Especial Semana Farroupilha

Avante, gauchada! Te pilcha, pega tuas armas e te prepara, porque vem aí a mais dura das batalhas, a da reconstrução desta terra depauperada pelas águas revoltas

Batalha nos campos de Rosário do Sul
Batalha nos campos de Rosário do Sul Foto : Leonid Streliaev
Especial Semana Farroupilha Nossa Tradição | Foto: Correio do Povo

A primeira reculuta

No começo tudo era campo, a campanha imensa, o Pampa estendido, o “mar” esverdeado a se perder de vista. Eram caponetes nativos aqui e ali, rios caudalosos, animais nativos e os donos da terra eram homens que viviam nômades, como na pré-história, Um espaço geográfico, específico dentro da América do Sul, com parte do território brasileiro, do Uruguai e da Argentina, e carregado de simbologia. Neste ambiente, os homens que aqui estavam – os indígenas pampeanos - e os colonizadores que chegaram, desenvolveram uma cultura típica, com características próprias no modo de viver.

Com a chegada, mais tarde dos europeus, no território americano, os índios pampeanos se vincularam à criação de gado e se tornaram exímios cavaleiros. Esses nômades, principalmente os Charruas, eram caçadores, pescadores, com aldeias improvisadas. Depois vieram os padres jesuítas, fundaram as reduções, mais tarde, surgiram as estâncias e o Rio Grande foi se moldando. Era a aurora precursora, a primeira reculuta.

Gaúchos com a bandeira rio-grandense | Foto: Leonid Streliaev

O grito de liberdade

E assim seguiram andando, os duendes do Pampa, os filhos do deserto verde, das várzeas e pradarias. Fizeram-se as estâncias, expandiu-se a criação de bois e cavalos, o gaúcho tomou de vez as coxilhas, os pequenos povoados viraram cidades. O pago ficou pujante, poderoso, a animalada brotava dos pastos verdejantes da Campanha, da Fronteira e das Missões, as charqueadas cresciam para os lados de Pelotas.

Mas nem tudo eram flores. O Império se arvorou contra o Sul, cobrando mais e mais impostos. Os líderes, estancieiros-militares que já tinham perdido muito na Guerra da Cisplatina, se revoltaram. E os campos voltaram a se tingir com o sangue na chamada Guerra dos Farroupilhas, quando parte do Rio Grande, com poucos soldados, enfrentou o Império. Foram dez anos de refregas, de lutas, de guerrilhas, resistindo bravamente até a Paz de Ponche Verde, em 1845. Às vezes, não se ganha a guerra, mas se obtém uma identidade, se adquire valores que vão sendo repassados de geração em geração.

Bandeira e adaga | Foto: Leonid Streliaev

A batalha das águas

Em maio deste ano o Rio Grande do Sul enfrentou o pior dos inimigos no campo de batalha: a natureza. O resultado, como não poderia deixar de ser, foi o de sair outra vez aniquilado. As enchentes não deram trégua, e a maior delas ocorreu em Porto Alegre, quando o Guaíba reivindicou seu antigo leito, invadiu ruas, avenidas e praças e se espraiou pelo Centro Histórico e bairros próximos. A tragédia foi física e moral, com a cheia histórica, maior inclusive do que a de 1941. Depois de mais de 10 dias chovendo forte ininterruptamente em todas as regiões do Estado, os afluentes do Guaíba despejaram sua fúria para dentro da Capital.

Foram terríveis dias de agonia e desespero em todo o Rio Grande. Mortes, desabrigados, gente e bichos perdidos, algo dantesco nunca imaginado e que se transformou numa tragédia de repercussão mundial. As águas não davam trégua, as cidades mostraram que não estavam nem um pouco preparadas para enfrentar tamanhas adversidades. Teve que ser um enfrentamento no braço, no coração, na alma e na coragem.

Lenço maragato | Foto: Leonid Streliaev

A última façanha

Depois de riscar as fronteiras a pata de cavalo e defender o território brasileiro com a lança firme na mão, os gaúchos foram convocados mais uma vez a mostrar para o mundo sua bravura. Após ver o Estado dizimado pelas enchentes de maio, que a tudo arrasou, o povo do Pampa tem dado sinais, outra vez, que vai se reerguer. Porque é de sua natureza, porque nasceu lutando nas coxilhas e várzeas, e é forte e aguerrido, como já estava escrito no hino. Haverá, sim, de se levantar do barro, das margens dos rios onde caiu prostrado pela força das correntezas. Tremeu, caiu, mas não morreu.

Levanta, gaúcho! Olhe para estes campos verdejantes onde nascem terneiros, potros e borregos por entre as macegas. Olhe para este céu azul, escute o grito dos quero-queros como a dizer para todos que esta terra tem dono. Não te entrega jamais, tu que já peleaste em tantas guerras, algumas que duraram anos e anos, e tu ali, firme, sem afrouxar o garrão, sem apear do cavalo nem mesmo para beber água.

Avante, gauchada! Te pilcha, pega tuas armas e te prepara, porque vem aí a mais dura das batalhas, a da reconstrução desta terra depauperada pelas águas revoltas. É chegada a hora de mostrarmos de novo a fibra e o que restou do sangue dos heróis de 35. Lá vem a cavalaria de Netto, e, juntos, venceremos esta última refrega, porque para isto nascemos, lutar de peito aberto pela liberdade como pelearam os farrapos. Esta é nossa virtude, nossa história e nossa salvação.

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