Canto aos sem importância
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Canto aos sem importância

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Meu canto simples, rústico e humilde, é de louvor ao povo sem nome que ajudou a construir, palmo a palmo, a história deste Rio Grande. Atrás de um balcão de bolicho de campanha, nos meus tempos de guri lá na Vila Rica, eu aprendi a valorizar essa gente sofrida, sem passado, presente e futuro,  andarilhos, peões por dia, changueiros que cruzavam os caminhos em busca de uns trocados para que pudessem matar a fome dos filhos. Pessoas que ninguém cumprimenta, pessoas que andam de olhar baixo, por tantas humilhações, por sentirem na carne, todos os dias, os açoites da vida. Ah, meus amigos, me doía por dentro ver pais de família serem mandados embora de seus empregos e  depois sentarem no banco do bolicho, com os olhos encharcados de tristezas, enquanto tomavam um copo de cachaça para lavar sua vergonha. "Mais uma canha, seu Paulinho, porque não sei como chegar em casa, outra vez desempregado", disse-me uma tarde o Corvinho, um faz tudo que vivia num rancho de corredor ali no Cerrito, com a mulher e os filhos pequenos.

Quando ele se foi, eu fiquei arrasado e comentei com minha mãe sobre a tristeza de ver pessoas, nossas amigas, assim, sem trabalho, sem dinheiro para comprar um litro de leite para alimentar suas crianças. Pedi para a mãe e, no outro dia, levei para o Corvinho uma pequeno rancho com alimentos. Antes de subir na carroça,  ainda  enchi os bolsos com balas e tijolinhos de banana que entreguei aos guris dele. Foi lindo de ver a faceirice do amigo quando viu meu gesto, bem pequeno, mas que o ajudaria muito. Voltei para casa de certa forma apaziguado, tinha feito pouco, mas havia ajudado, coisa que nem seu antigo patrão teve a dignidade de fazer. Depois, todo granjeiro, todo fazendeiro que passava pelo bolicho, eu pedia um emprego para o meu amigo Corvinho, até que um dia consegui um novo trabalho para ele. Então, quando ia se apresentar,  disse-lhe para que se esforçasse, pois havia lhe recomendado . "Não deixe que o homem se decepcione contigo,  fiz uma baita propaganda tua, não me deixe mal." O Corvinho parou de beber, virou tratorista, estudou, fez cursos técnicos e, anos depois, se transformou em gerente da propriedade tamanha competência e o denodo com que trabalhou.

Eu já disse há muito tempo e agora repito, escrevo para os que não têm voz, não têm nome, nunca dão entrevistas, não aparecem nos jornais, não falam em rádio ou televisão. São anônimos, são aqueles que todos pensam não ter importância.  Mas rogo-lhes outra vez, não os maltratem, olhem-nos como pessoas em busca de uma oportunidade, pois estão estropiados de corpo e alma. Com as roupas rotas, camisas rasgadas, chapéus furados, o coração em frangalhos, novos farroupilhas a pé, esgueirando-se pelos descaminhos sem fim do Pampa ou pelas ruas sujas das cidades. São minhas as suas dores, desses desalmados, desesperados que perambulam sem amor. A minha escrita é igual a eles, de pouca importância, mas a mínima que tiver, que sirva para cicatrizar suas feridas abertas. Faço isso porque já estive entre eles, sou um deles, e e sei muito bem como são compridos e dolorosos os espinhos do mundo...