Causos de eleições

Causos de eleições

Ela aparentava não estar escutando, disfarçava e, muitas vezes, eu a flagrava rindo junto com os clientes.

Paulo Mendes

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Cresci em um período nebuloso da história política brasileira. Lá no interior da Vila Rica as notícias sobre o poder eram escassas, discussões ou debates não eram bem-vindos porque, segundo minha mãe, sempre terminavam em briga. Por isso, dona Mirica, a bolicheira, não deixava as conversas sobre pleitos se alastrarem porque já sabia de antemão onde iam parar. Mesmo assim, vez por outra, um gaiato começava a contar causos engraçados sobre eleições aqui e ali, sem citar nomes, sem nomear os envolvidos. Então, se era para fazer rir, se não houvesse furor partidário, havia uma certa condescendência vigiada por parte da bodegueira. Ela aparentava não estar escutando, disfarçava e, muitas vezes, eu a flagrava rindo junto com os clientes. Muitas histórias nem tinham acontecido, mas eram contadas como verdadeiras. 

Seu Turíbio era arenista de “cruz na testa”, convicto, apoiador da ditadura militar, homem extremamente conservador, apesar de suas enormes contradições. Era um defensor da tríade Tradição, Família e Propriedade, mas nas três cometera deslizes que tentava surrupiar do conhecimento de todos. Sabia-se, no entanto, que havia ficado solito porque a esposa descobrira seus casos com amantes eventuais. A própria casa em que morava fora adquirida por meios, digamos assim, não republicanos. Nada disso evitava, por exemplo, que o velho rabugento contasse histórias extravagantes de seus adversários imaginários. Quem não pensasse exatamente como ele era taxado de ladrão, salafrário e comunista. Falava tão enfático e com tantos exageros que a gente começava a rir. Então, ele costumava ficar brabo e a gente ria ainda mais. 

Naquela época, o que também não faltava eram causos de candidatos em busca de votos. Teve um cuera muito estudado que caprichava nas palavras difíceis para se eleger vereador. Uma feita, numa comunidade humilde, reuniu o povo ao lado de um salão paroquial e começou um discurso erudito. Um ouvinte se chateou com aquilo e gritou. O candidato perdeu a compostura e destratou todo mundo. Então, deu-se conta que havia extrapolado e tentou consertar: “Minha gente, me desculpem, sou educado, mas é só me apertarem, subirem em cima de mim, que perco a cátedra”. Quando estava se retirando, um homem simples se aproximou e disse: “Doutor, o senhor não se preocupe, eu tenho uma filha que também perdeu a cátedra bem cedo, coitadinha, bobinha, ingênua, mas hoje tenho um neto lindo...” 

Contam que um candidato a deputado pela oposição foi buscar votos num município vizinho e lá se deparou com a morte de um rival, homem que pertencia ao partido do governo. Então, para se vingar, teria pedido a palavra: “Fulano de tal era um adversário político, mas homem digno, um pai de família exemplar e o maior onanista que essa terra já teve”, sendo muito aplaudido pelos presentes... É assim até hoje, os causos em tempos de eleições não param nunca e seguirão sendo contados sempre enquanto ocorrerem disputas pela preferência popular. Histórias de compra de votos, de cédulas que desapareceram misteriosamente, mentiras e fraudes de todo tipo. Mas como já disse um filósofo campeiro, “a democracia tem lá seus problemas, mas sem ela é muito pior”. Então, meus amigos e minhas amigas, às urnas! 


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895