Cerro das pedras douradas

Cerro das pedras douradas

Ao anoitecer via o vulto crescer junto aos arbustos e touceiras. Ele nunca perguntou-lhe o nome, nem ela o seu. Apenas mateavam.

Paulo Mendes

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Ele sempre soube que o cerro era diferente. Desde guri, quando ia passar as férias na Estância da Goiabeira, onde o mais velho dos tios, o tropeiro Selmar, era capataz, gostava de passar horas inteiras por lá. Era uma atração que o lugar exercia nele, um sabia do outro. Quando os peões perceberam, tentaram assustá-lo, que o cerro era mal-assombrado, que por vezes uma noiva vestida de branco aparecia segurando um buquê de rosas douradas nas mãos. Nunca teve medo, passava o tempo que podia por lá, era um lugar calmo, tranquilo, e, quando dormia sobre o pelego, sonhava com uma linda moça morena, de olhos cor de trigo, com um diadema na cabeça. A aparição, ou quem quer que fosse, vinha sempre e se sentava ao seu lado e ali ficavam, proseando, sem embaraço nenhum, sem perguntas, sem tristezas, sem nenhum tipo de problema. 

Os anos foram passando e depois que o tio faleceu, nunca mais foi lá. Sua vida enveredou para outros lados, foi morar na cidade grande, fez faculdade, casou, viveu muitos anos longe do campo e da Serra das Encantadas, onde passara a infância. Mas a vida é assim mesmo, dá gambetas, quando parece que nos afasta de algumas coisas aí mesmo é que nos aproxima. Não lembra quanto tempo passou, trinta, quarenta anos, foi um período em que as coisas escorreram às vezes lentas, às vezes aos borbotões, de um jeito esquisito. Foi então que se encontrou solito de novo, os filhos seguiram suas vidas, ficou viúvo e aquela cidade enorme não lhe interessava mais. Alguma coisa o fazia olhar, nas tardes, para o lado do poente e o convidava a retornar. Lá, bem distante, para onde brilhava o cerro das pedras douradas. 

Após cinco horas de viagem por rodovias, chegou à cidadezinha. Ficou espantado, pois praticamente não a reconhecia. Aqui e ali algum vestígio da infância, como o velho frigorífico abandonado, a estrada de ferro, o moinho de trigo. No hotel contaram-lhe que a estância estava repartida, dividida por herdeiros. Tudo virado em lavoura, sobrara uma chácara lindeira da estrada real, com o cerro. Quem sabe? No outro dia cedo, depois do café, foi se informar na empresa de negócios rurais. Eram 20 hectares, uma modesta casa de alvenaria, um açude, pomar, horta e o cerro. Fechou o negócio. Depois voltou e em um mês estava instalado na nova morada. 

Voltara, porque tudo retorna. Diferente, mas volta. Gostava de ouvir o barulho das máquinas roncando nas reformas. Descobriu que a chácara pertencera ao finado Salustiano, um antigo empregado da estância. Aos finais de semana, encilhava o tordilho, pegava os avios de mate e se mandava para o cerro. Apeava, deixa o tordilho pastando preso ao maneador, fazia um fogo de chão, esquentava a água na cambona, preparava um amargo e esperava por ela. Se as pedras no final da tarde brilhavam, era sinal que viria. Ao anoitecer via o vulto crescer junto aos arbustos e touceiras. Ele nunca perguntou-lhe o nome, nem ela o seu. Apenas chimarreavam. Na cidade, diziam que o velho havia enlouquecido, com costumes estranhos.

O cerro ainda está lá, é vislumbrado da estrada. Nas madrugadas claras, o casal pode ser visto mateando na enserenada e imensa noite do Sul.


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