O tropeiro Valdoir, o Valdinho, nascera no povoado de Massoler, no Uruguai, mas ainda criança viera com o avô para o lado brasileiro, trabalhar numa estância. Quando se tornou homem, começou a conduzir tropas para um fazendeiro de Santana. Da mãe, guardava uma vaga lembrança, porque morrera quando ele tinha apenas dois anos. Ocorre que, no velório, o avô o levantou pelos ombros para que o guri visse, sem entender o que estava acontecendo, o rosto da mãe morta. Era só o que lembrava, daquele vulto, uma imagem coberta por véu, o rosto pálido, aquele corpo imóvel, o rosto com ar de preocupação, assustado, talvez tenha temido antes de morrer pelo pequeno filho.
Nas madrugadas de ronda, fossem as geladas e escuras de inverno, ou as enluaradas de outono, mantinha a cara fixa no horizonte, os olhos inquietos e bombeadores, brilhantes, os ouvidos atentos ao menor sinal de animal por perto. Medo? Não tinha, havia passado por tantas coisas neste mundo que pouco receava das coisas terrenas. Mas respeitava demais as divindades, os mistérios e a natureza. Quando o avô se foi, ele já um rapazote, ficou solito no mundo, mas isso nunca o fez um amargurado, muito pelo contrário.
Na culatra das grandes tropas, passava os dias assobiando, dando gritos com os animais ariscos, falando e contando causos para seus dois cachorros ovelheiros, o Dom Bocó e o Lorde, o primeiro baio, e o segundo oveiro. Além deles, Valdinho tinha ainda de seu, mesmo, uma égua moura, três trodilhos, de lida, um tostado, caseiro, e um zaino, de carreira, que ficava aos cuidados de um compositor de Bagé. Além dos arreios, dois laços, uma cambona alouçada e uma adaga prateada. Quando não estava tropeando, campeava umas carreiradas aos domingos. E cumpria um pedido do avô, nunca se olhava no espelho.
Era um homem jovem quando se encontrou com a morte, no Rincão Albornoz. Desta vez, era o ponteiro, porque conhecia a região como a palma da mão. No início da tarde, uma barra se formara no poente, mas parecia uma tormenta rápida. Os dias anteriores vieram extremamente quentes, pesados e abafados. Uma chuva ia refrescar os tropeiros, faria bem para o gado, de um fazendeiro afamado, e ainda para os cavalos que andavam extenuados.
Ninguém até hoje sabe o que de fato aconteceu desde o início da chuva que viera de supetão, pegando os experientes tropeiros um tanto despreparados. Dera tempo apenas de Valdinho desemalar o poncho de baeta colorada, vesti-lo, tapando por completo a anca do Urso, um dos tordilhos. E então veio o trovão, que varreu a campanha de um lado a outro. E o raio atingiu em cheio cavalo e homem que tombaram ao lado da estrada, como se tivessem sido golpeados por uma força descomunal. Quando os colegas acudiram, nem cavalo nem tropeiro respiravam mais.
A cruz segue lá, quase na fronteira, numa terra onde Uruguai e Brasil disputam a posse do chão e do corpo do tropeiro, o doble chapa. Se ele tivesse conhecido a mãe, e se ele tivesse se olhado no espelho antes de morrer, saberia que havia herdado o mesmo rosto afilado, a tez morena, o nariz adunco, os olhos gateados, mistura da mãe índia e do pai com sangue de imigrante europeu. A cruz contém uns dizeres que pouco se consegue ler, o nome, uma data incompleta e uma história que ninguém ainda havia se animado a contar.
