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O abraço

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          Quando desferiu o primeiro golpe ouviu um gemido engasgado. Em seguida baixou o segundo, mais forte. O velho foi ao chão e, como o sargento ensinara, chutou-lhe o ventre. O "inimigo" largou a enxada e espirrou uma golfada de sangue pelo nariz e boca. Foi o alvo. Enfiou-lhe novo chute com a ponta do coturno. Então desistiu, aquilo não era mais um homem velho, só uma forma disforme e ensanguentada. O capitão gritou a ordem de recuo. Não havia mais resistência. Eram poucos, nem armas tinham. "Foi como tirar o doce de uma criança", alguém brincou.

Criança, o soldado Alcides ainda era quase uma criança. Dezoito anos, mas sentiu um misto de prazer pelo dever cumprido, afinal era soldado. Mas ao mesmo tempo, havia um terrível remorso, pois acabara de golpear seu próprio pai, integrante de um grupo que reivindicava melhores condições de trabalho no campo e outras questões políticas. Agora andava assim, um homem de ideias estranhas, como diziam seus superiores lá no quartel. Para Alcides,  isso não importava, queria ser militar, custasse o que custasse, havia dito isso ao pai. Os outros irmãos ficaram ao lado do velho, perambulavam pelas estradas carregando enormes cruzes de madeira, bandeiras, cartazes e faixas. Ele decidiu ficar com a mãe. Hoje era quem a cuidava. Onde andava o velho? "Por aí, meu filho, ele tem um sonho, briga pelos direitos dos pequenos, mas esse mundo não gosta de quem anda fora da ordem, o que vamos fazer?", conformava-se a mãe.

À noite, deitado na cama do quartel, escutou no rádio a notícia do confronto:  "Um integrante do movimento, José Cabreira, de 76 anos, acabou não resistindo aos ferimentos", disse o locutor.  O soldado Alcides,  que até então havia se mantido impassível ao fato, sentiu o golpe. Não conseguiu dormir durante toda a noite. Na primeira hora da manhã procurou o sargento, depois o capitão e foi encaminhado ao comandante, que o liberou para ir ao velório e ao sepultamento do pai. A capela humilde do arrabalde estava lotada. Quando o viram, fardado, criou-se um burburinho e logo alguém gritou e o cercaram. "É um milico, descarado, ainda vem aqui, vamos matar o desgraçado".  "Sou  filho dele, sirvo noutra cidade, não moro aqui e nem participei da ação", mentiu para salvar a pele.

Entrou meio acabrunhado e o viu estirado dentro do caixão de tábuas de eucalipto. Um olho vazado, a cara desfigurada. Recordou quando o pai o levou de carroça para o primeiro dia de escola. Dos causos, do cheiro de fumo em rolo. Ele o adorava, admirava os calos de suas mãos, o sulco dos anos. Os cabelos agora eram brancos, mas já haviam sido pretos, como os dele.  Tirou do bolso um espelho e viu nele a cara do pai. Eram idênticos. Faltou ar, desatou num choro e ganhou a rua. Foi se desfazendo da farda e a correr pela estrada de chão, enquanto imagens vinham-lhe a cabeça, do pai ensinando-lhe a ler. Não, não era possível, o que tinha feito? Correu, correu, correu demais. Exausto, vislumbrou o rio e desesperado saltou. Antes de beijar a água fria, viu a imagem daquele rosto tão conhecido e tão amado. Então, ao afundar, o abraçou para sempre...

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