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O que trago na retina

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Quando deixei minha Vila Rica e me boleei para outros pagos, era apenas um guri que ainda andava de calça curta ou de bombachinha arremangada e pé no chão.  Não imaginava, àquela época, que guardaria para sempre na retina os retratos do cotidiano simples da infância e que isso ficaria grudado em mim como carrapato na volta da paleta. Mesmo agora, passados tantos anos, ainda vejo o entardecer avermelhado para os lados dos castelhanos. As vacas de leite, as ovelhas, a terneirada, meus cachorros, o cavalo Tostado, companheiro preferido daquelas tardes verdejantes. Estão lá, ainda estão lá... Mas aqui por dentro sinto um vazio imenso e à minha frente só vejo paredões de cimento.

Por isso, sempre que a Expointer traz de caminhão para a Capital essas imagens campeiras, eu me transporto outra vez para a terra querida que me viu crescer. E, confesso, eu a abandonei achando que noutros lugares seria mais feliz, com oportunidades e atividades que só poderia exercer longe de lá. Hoje digo que estava enganado, porque o que queria era apenas tirar leite de madrugada, ouvindo os passarinhos fazer festa no arvoredo. Depois tomar café junto com meu irmão, o pai e mãe, comer um pão caseiro com nata e mel, depois atender no bolicho, arrumar as cercas, carrocear, cuidar das plantações, das pequenas lavouras de onde tirávamos nosso sustento. O que queria, na verdade, meus amigos, era ter uma vida como aquela que eu tinha e que a troquei por outra, dentro de apartamentos, em cidades barulhentas e rodeado de pessoas que nem sabem o nosso nome.

Ah, meus amigos, a gente corre tanto, anda por vários lugares novos e bonitos, tira fotografia para mostrar aos amigos, quando na verdade queria mesmo era ter ficado lá no meio da bicharada, recebendo aqueles olhares amistosos dos cuscos. Porque digo sem medo de errar, quanto mais conheço pessoas, mais aumenta meu apreço pelos animais. Agora, por exemplo, olhando para uma linda fotografia que o colega Mauro Schaefer fez de uma vaca ao lado de sua cria, numa Expointer, me lembrei outra vez da minha vaquinha Jérsey, a Gézinha, como a chamávamos. Era um doce de mansa, leiteira como ela só. O pai a comprou ainda novilha e viveu muitos anos. Teve vários filhos, nos alimentou com seu leite durante anos e quando foi vendida, já velha, junto com outros bovinos, eu tive uma crise de choro. O pai mandou que a levassem quando eu estava no colégio, para que não sofresse, mas sofri ainda mais, porque não pude me despedir de seus olhos grandes, de seu lombo baio e macio, de seus pequenos chifres retorcidos, de seu jeito humilde e tranquilo.

Perdoem-me, mas há dias que acordo ensimesmado, apartado de mim mesmo, e só me encontro nessas imagens que ainda trago na retina, vivas, tão vivas como elas só. São tão queridas, são tão doces, são tão velhas e são tão minhas essas imagens que, por isso mesmo, as guardo e cuido bem, como a vaca cuida de seu terneiro. Trago na retina a dor de um passado que nunca mais voltará. Trago nos olhos as imagens campeiras que se perderam para sempre, que se transmutaram e hoje são apenas frases encharcadas de saudade...