Onde anda o guri da minha infância

Ele herdou as nossas bolitas, as pandorgas, o arco de roda, os ossinhos do gado, ficou com tudo. E eu por um longo tempo, atarefado, até nem pensava mais nele

Nos campos da infância ficou o guri
Nos campos da infância ficou o guri Foto : Jarbas Coppeti / Especial CP

Morava em mim, antigamente, um guri de calças curtas, de alpargatas barbudas e com um chapéu preto furado enterrado na cabeça, que abria as porteiras para eu e minha alma passar. Quando crianças, vivíamos juntos, embodocados, onde um ia o outro ia atrás, inseparáveis. Da manhã à noite, na mangueira, tirando leite das tambeiras, pelos corredores, repontando vacas mansas, no colégio, mexendo nos livros e cadernos, por toda parte, nas várzeas, assustando as preás e lontras, e andando e assobiando pelos extensos caminhos do Cerrito.

Quase nunca brigávamos, a não ser quando ele fazia arte e quem apanhava era eu. Sofria calado, sempre, mas nessas horas eu explodia com ele, o medonho, o que prometia ser tranquilo e obediente, mas alguns dias depois voltava com as suas travessuras. Vivemos assim por muito tempo. Só que um dia me vi guri topetudo e larguei de lá, de tiro, em busca de meus novos horizontes. Mas ele, por maroto que era, ao contrário de mim, decidiu não crescer e ficou por lá mesmo, fazendo para sempre o que sempre fazíamos. Ele herdou as nossas bolitas, as pandorgas, o arco de roda, os ossinhos do gado, ficou com tudo. E eu por um longo tempo, atarefado, até nem pensava mais nele. Até que um dia a saudade bateu.

Quantas vezes voltei e tentei reencontrá-lo por entre as coivaras, pelas lavouras, pelas taperas, pelas costas dos rios, ao lado dos aramados, mas... nada, nem rastro do maleva, parecia até o boi barroso, aquele boi encantado e fujão que se escafedeu pelos cerros de pedras, furnas e grotas. Eu procurava, não achava nada, mas tinha a impressão que ele me espiava, de soslaio, enquanto se esgueirava sem trégua, de um lado para o outro, com os caniços ao ombro, ou então, sentado nos varões da porteira, sorrateiro. Creio que sabia que eu o amava, mas se fazia de sonso, de bobo, que disso não tinha nada. Falava pouco e só se tornava falastrão quando entrávamos em alguma brincadeira.

Ah, meus amigos e minhas amigas, eu queria encontrá-lo para confessar, de amigo para amigo, que só fui feliz mesmo foi quando vivíamos irmanados, grudados, juntos. É que quando a gente é pequeno, tudo custa muito para passar e, quando passa, quando nos damos conta disso, aí já é tarde demais. Será que ele sabe disso? Talvez até saiba, porque, muitas vezes, em sonhos, ele ressurge à frente, e vamos de novo pescar lambaris prateados nas azuladas sangas da Vila Rica.

O engraçado é que, às vezes, tento achá-lo olhando para o espelho. Esforço-me para surpreendê-lo nesses cabelos ralos e esbranquiçados, parecendo a geada inexorável do tempo; nas rugas do meu rosto que se tornaram vergas, trilhos e teias por onde se esvaiu a seiva verde da minha juventude; nas pernas e nos braços fatigados, cheios de cicatrizes e quebraduras, com os quais vendi minhas força de trabalho em troca de uns parcos mil réis. Não, o gurizinho sapeca e ladino há muito já não está mais por essas paisagens.

Onde está o guri que abria as porteiras da minha mocidade perdida? Aquele que brincava todos os dias, comia pitangas e tomava banho de açude nas tardes de domingo. Sinto amigos, que o desgranido ergueu seu rancho neste coração interiorano. Ah, agora o estou enxergando de novo. Vou me encher de coragem e tentarei abraçá-lo, outra vez. Pedir desculpas e escancarar para ele esta alma cansada de lonjuras e encharcada de tanta saudade.

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