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Paixão Côrtes, 90 anos!

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Desde o precursor sobre assuntos rio-grandenses, o major santa-mariense João Cezimbra Jacques, muitos folcloristas, historiadores, antropólogos, sociólogos têm queimado pestanas debruçados noites e dias no resgate de músicas, danças e lendas gaúchas.  Nem vou citar nomes porque correria o risco de esquecer muita gente importante que nesses anos todos foram cruciais para o trabalho.  Porém, vou destacar hoje, aquele que considero fundamental para o folclore do Rio Grande do Sul: João Carlos D`Ávila Paixão Côrtes. O pesquisador, que neste dia 12 completa 90 anos, foi tema de uma publicação de página inteira aqui no Correio do povo, na última terça-feira, quando o filho, Carlos, enviou ao jornal uma carta onde o Paixão Côrtes avisa que está deixando a vida pública, não quer mais dar entrevista ao vivo, participar de programas etc. Ele e a família, entendem que é chegada a hora de se recolher da "Longa tropeada" cultural.

Quis o destino que esta carta histórica fosse publicada pela primeira vez aqui no nosso centenário Correio do Povo, num esforço da jornalista Luciamem Winck. Aliás, foi a Lu Winck que teve a incrível ideia de levar Paixão para uma outra foto, feita por Diego Vara,  quando da transferência da estátua Laçador para o atual sítio, perto do Aeroporto. Em vez da estátua, o homem que simboliza o gaúcho rio-grandense posou outra vez, como havia feito em 1954 para o escultor Antônio Caringi. Nosso centenário jornal sempre acompanhou as pesquisas, valorizou e reconheceu seu esforço para resgatar e divulgar, muitas vezes sem nenhum  apoio institucional, suas pesquisas folclóricas pelos nossos rincões. Esteve ao seu lado desde o dia 9 de setembro de 1947, quando, de improviso, Paixão Côrtes, captura uma chama num chumaço de estopa, pendurado num cabo de vassoura e embebido em gasolina da Chama da Pátria e, após andar com o fogo pelas ruas da cidade, leva a centelha para o Julinho, onde mantém o fogo num candeeiro. O gesto simbolizou o início do movimento tradicionalista, a valorização da cultura gauchesca que se espalhou mundo afora.

No início dos anos 2000 tive o prazer de conviver semanalmente com Paixão Côrtes. Depois de participar de um programa na Rádio Guaíba, vinha tomar chimarrão comigo na redação do Correio e contar as suas peripécias. Sempre foi bem-humorado e me contava os fatos com alegria e minúcias, desde uma viagem de estudos que fez à Nova Zelândia, até suas férias escolares em Júlio de Castilhos, nas fazendas dos irmãos Vieira, onde passou vários verões, campereando, caçando, churrasqueando e se divertindo com os amigos. Culto e poliglota, Paixão era um jovem que poderia viajar para muitos lugares nas férias, mas preferia, o cavalo, os causos de galpão e o folclore que sempre amou.

No lançamento de meu primeiro livro "Campereadas - Crônicas, Contos e Causos do Sul", em 2011, antecipou o retorno de uma viagem à sua Livramento, para estar presente na Feira do Livro. "Não se deixa um amigo na mão", disse na oportunidade, com sua generosidade do tamanho do Rio Grande.  Obrigado, amigo, tentarei seguir seus conselhos,  imitar sua conduta e trabalhar com a mesma dedicação que tiveste pelo Rio Grande. Ganhar  a sua amizade e consideração será sempre meu grande orgulho...