Prosa de açude

Prosa de açude

Hoje somos lembrança, como essas fotografias em preto e branco penduradas nas paredes das casas de pedra.

Paulo Mendes

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Ah, meu velho açude azulado da infância, quase não te reconheço mais, também tu não me reconheces. Sou eu, o pequeno bolicheiro, lembras? Passava horas nas tuas margens, na taipa, solito, segurando os caniços lambarizeiros de taquara, com o embornal de lona, cheio de anzóis, empates, linhas, o alicate e a faquinha de prata. Algumas vezes, ainda carregava para perto de ti uns biscoitos, um naco de goiabada, um pedaço de queijo fresco para amenizar a fome naquelas tardes de domingo. E agora tu estás assim, quieto, mudo, mantendo um respeitoso silêncio frio e melancólico que combina com este entardecer de julho. Está bem, te deixarei como estás, nem atirarei pedrinhas nas garças brancas e nos socozinhos, até porque eles já não existem mais. Para onde foram todas aquelas aves, meu amigo?

O que fizeram contigo? Sei, tu gostavas mesmo era de ver a gadaria de boca e goela secas matar a sede nas tuas águas serenas e cristalinas. Eram animais lindos e vistosos, vacas de cria, terneiros, novilhas de sobreano, relampejando o pelo no sol do meio-dia. Eram tropilhas de baios ruanos, lobunos, gateados, tostados, zainos e bragados oveiros, cavalos bem gaúchos, bons de pata e macios de lombo, esses da mesma cepa que ajudou a empurrar nossas fronteiras bem para lá, onde o sol está se pondo. Agora te paras a mirar taciturno essas imensas lavouras de soja que te rodeiam, plantas enormes e que todas as colheitas vão para o estrangeiro. E a nossa antiga peonada minguando pelos corredores sem fim do pago, de freio e pelego na mão.

Lembras, querido manancial dos meus verdes anos, aquela vez que passei mais de dez dias adelgaçando a égua rosilha? Era uma medonha aquela mula, redomona e arisca, mas que de tanto arreio ficou mansa até para selim de prenda? Andei até na cidade, me exibindo, todo pilchado, fazendo graça, bem montado, tirando o chapéu de aba larga quando passava em frente das gurias que mateavam na praça. Elas riam, atiravam beijos, assobiavam e eu ali, bem pachola, fazendo pirraça, escaramuçando, mostrando que a égua era boa de rédeas. Na volta, ainda parei no Homero pra tomar um trago de canha, à moda antiga, de pé, no balcão, segurando a rosilha pelo cabresto. No fim da tarde, quando voltamos, vi meu rosto de guri novo espelhado em ti, enquanto a égua bebia água, batendo a barbela do freio.

Bueno, açude velho, a prosa está boa, mas estou indo embora porque o dever me chama. Antes de voltar queria te dizer que somos iguais, do mesmo naipe, farinha do mesmo saco e compartilhamos os mesmos sentimentos. Já fomos bonitos e jovens, já fomos tão úteis, éramos uma realidade e um sonho. Hoje somos lembrança, como essas fotografias em preto e branco penduradas nas paredes das casas de pedra. Naquela época, achávamos que tudo ia durar para sempre, não pensávamos em nada, apenas vivíamos felizes em meio à natureza verdejante dos antigos campos da Vila Rica. Eu te peço que, como eu, resista. Não te entrega. Siga aí, parado, quieto, como um baluarte, água, memória e imagem de um tempo que já foi lindo. Assim, revivemos, eu e tu na mesma ronda, irmãos de terra e jornada. Seremos esperança e verdade de um novo dia bem no fim desta campereada.


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