Terra fertilizada de sonho e coragem

Mas os gaúchos somos mais que homens montados, de chapéus de abas largas, de adagas na cintura, laço nos tentos. Mais que cavalos Crioulos e gadaria pastando no Pampa

Tinham mãos calejadas esses homens e mulheres que vergaram a terra do Planalto Médio e do Noroeste do Rio Grande
Tinham mãos calejadas esses homens e mulheres que vergaram a terra do Planalto Médio e do Noroeste do Rio Grande Foto : Leonid Streliaev

Aí estão, meu senhor e minha senhora, à sua frente, a terra revolta, as sementes que viraram frutos. Hoje, estão lá, estão vendo, tratores com cabines refrigeradas, plantadeiras, colheitadeiras, os projetos agronômicos nos notebooks, a agricultura mecanizada de alta performance. Uma beleza, alta produtividade sementes melhoradas, adubos, gráficos, aviões, sistemas de irrigação, controles via drones. Mas antes? Ah, isso vou contar agora. Escute, não minto, porque eu os vi, ninguém me falou, não escrevo por ouvir dizer.

Tinham mãos calejadas esses homens e mulheres que vergaram a terra do Planalto Médio e do Noroeste do Rio Grande. A maioria tinha cabelos e olhos claros, alguns de melenas ruivas, descendentes de outros de além-mar, gente que veio em busca de uma nova terra para plantar e colher. Vieram para aqui fazer sua nova pátria, se entreverar com os gaudérios, os mestiços, bugres e mulatos. Olharam fundo nos olhos de animais selvagens, amansaram bois, fizeram lavouras. Montaram povoados, ergueram oficinas, ferrarias, comércios, as casas viraram vilas, depois distritos e por fim cidades. Espraiaram suas ideias, seus sonhos e triunfaram.

Vejam a pujança das cidades que disso brotou, mirem as pessoas que transitam por essas rodovias. Tudo começou lá nos confins dos tempos, com as mulas, os carroções puxados por parelhas de cavalos, as carretas de boi, depois, lentamente, os primeiros tratores, as trilhadeiras, imaginativas máquinas. Eu os vi subindo a serra, indo tentar a sorte nessas coxilhas missioneiras, plantando trigo, milho, feijão, e, por último, a soja. Ergueram pomares, plantaram tomate, cevada, implantaram açudes, trocaram o churrasco de chão por galinhadas, massa com galeto, e das hortas passamos a comer verduras.

Um dia, o Lampião, um amigo que morava perto do bolicho, numa chácara, e ganhava a vida fazendo changas em estâncias, chegou todo faceiro e contou que ia trabalhar como tratorista. “A coisa tá mudando, dona Mirica”, disse à minha mãe. “As granjas estão tomando conta das fazendas, a senhora vai ver.” Vimos mesmo. As tropas minguaram, a cooperativa de carnes fechou e começaram a surgir silos para estocagem de grãos. Era mesmo a transformação da economia, o passado dando lugar para o presente. Na cidade, surgiram supermercados, lancherias e nosso antigo armazém se mostrou obsoleto.

Ficaram as memórias e passou a emergir um novo pago, outros estilos e costumes, o mesmo e diferente. Mas os gaúchos somos mais que homens montados, de chapéus de abas largas, de adagas na cintura, laço nos tentos. Mais que cavalos Crioulos e gadaria pastando no Pampa. Somos também agricultores, lavradores, pescadores, birivas, bicuíras, unos e diversificados, e, por isso, somos fortes. Temos rusgas, preconceitos uns com os outros? Certamente. Sempre fomos divididos, cores diferentes nos lenços e ideias antagônicas, mas assim crescemos e chegamos até aqui.

Pensemos. Debaixo desta terra vermelha, dormem as cinzas dos pioneiros, aqueles que arremangaram as mangas, gringos, pelos-duros e visionários. Precisamos saudá-los, sem eles nada disso existiria. É isso que conto, como um guasqueiro numa trança de oito, numa tarde de outono que é um fim e um começo. Aquentamos a água e as mãos. Mãos que fizeram gemer a terra fertilizada de coragem.