Eram seis amigos leais
Cada um tinha seu jeito
Seis estampas de respeito
Sem se desgrudar jamais
Um era o capataz
O mulato o mais ligeiro
Mas ainda tinha o terceiro
Guri bueno por demais…
Tio Zeca capatazeava as tropas que vinham das estâncias para serem abatidas no frigorífico da Vila Rica. Sempre montado no tordilho Capitão, altivos os dois, o homem gostava da liberdade de ser tropeiro, decidir suas jornadas por conta própria, onde iriam pernoitar, em que local seria a sesteada, quem ia fazer a culatra, a ponta. Além disso, nas tropeadas mais longas, sempre contratavam ajuda de mais um ou dois, mas esses eram eventuais. Fixos mesmos eram os três. “Muita gente na tropa é só para armar confusão”, resumia Tio Zeca, que chegara homem novo na região, vindo das lavouras de arroz de São Vicente. Lá passava os dias com água até a cintura, dias e dias fazendo taipas de pá, outras vezes cortando o grão já maduro de foice. E ainda enfrentava os perigos da trilhadeira. Numa ocasião, um grão de arroz atingiu o olho do irmão, que ficara cego. Decidiu largar a atividade e viver montado em cavalos, sentir o vento na cara, de cá para lá, de lá para onde a tropa devia ser levada. Isso sim é que era vida.
O mulato seu Neto era habilidoso no laço de doze braças, laçador, pealador de sobrelombo, carneava uma rês num upa, curava bicheiras, castrava terneiros, sabia cozinhar, erguer aramados, esquilador de mão cheia, xiru de todo serviço. Era uma referência e, quando estava montado no tordilho Companheiro, parecia um rei em seu trono. Os cavalos eram a pequena tropilha de Tio Zeca, que apreciava o pelo. “Tordilho é um capincho na água, bons aprumos, cômodo excelente e enxerga de noite como se dia fosse.” Havia vários cavalos de encilha, mas os tordilhos usavam na passagem de rios, nos apartes de mangueira ou na cavalgada de retorno. Seu Neto era, ainda, um exímio contador de causos, daqueles que se encompridavam na boca do mulato velho. A cada vez que contava, aumentava um pouco aqui, outro detalhe lá, e assim a história ressurgia sempre com novas nuances.
O “Guri” já era homem feito, mas costumavam chamá-lo assim e o apelido pegou, persistiu, porque no campo o tempo tem uma cronologia própria. Criara-se na Estância da Pedra Moura e fora aprendendo tudo com a indiada de lei. Tinha personalidade simples, humilde, mas tinha lá seus caprichos. Sempre ajeitado, de roupas limpas, bem pilchado, gostava de montar o tordilho Justiça. Era hábil no violão, que carregava dentro de um estojo de couro atado na garupa. E que voz, quando abria a goela por aqueles corredores até a passarada se aquietava para escutá-lo cantar.
Juntos, faziam linda figura, os três homens, três gerações, e os três tordilhos, sangue, raça e procedência. Um dia chegaram lá em casa, em nosso bolicho beira de estrada, como três mosqueteiros retornando de outra odisseia campeira.
Os três tropeiros montados em seus pingos claros como um clarão de alvorada. Tio Zeca bebeu uma cerveja preta, seu Neto pediu uma canha pura e o Guri tomou um samba. Eles se entendiam tanto que terminaram juntos as suas bebidas. Convidei-os para mais uma rodada: “Querem mais um trago, ainda é cedo...” Tio Zeca me cortou: “A cachaça é china maula, já levou muito índio pro cemitério.” Guri montou, puxou o violão e cantou: “Aqui deixo a despedida/ Pois é Deus que nos governa/ Por ser tão breve esta vida/ Nossa tropeada é eterna...”
