Em 2024, devido às crescentes dificuldades nos mercados mundiais, as fusões, colaborações ou até mesmo a “tomada de poder” por parte de grandes montadoras estão de volta. A Stellantis, carente de eletrificação, mas com bilhões em caixa, adquiriu a marca chinesa Leapmotor por 2,5 bilhões de dólares. A Leapmotor, novata na China, produziu seu primeiro modelo em 2019 e logo se destacou pela produção de pequenos carros elétricos, tecnológicos e de baixo custo. Isso atraiu pretendentes como Volkswagen e Stellantis. Sem alternativas à vista e pressionada pelo futuro da mobilidade elétrica, a Stellantis optou pela compra.
Para evitar ferir o orgulho da indústria automobilística chinesa, a Stellantis descreve a aquisição como uma “associação” com a Leap. Contudo, é agora proprietária da marca, com carros da Leap sendo renomeados com emblemas da Stellantis. Os primeiros modelos “Leap-Stellantis” já são comercializados na Europa, com preços competitivos na faixa de 25 mil euros. Esta união parece ter todos os elementos para ser um caso de sucesso.
Mercedes-Benz e Chrysler: casamento marcado pelo fracasso
Em 1998, a Mercedes-Benz associou-se à americana Chrysler, com o objetivo de formar a terceira maior força global, atrás da Toyota e Volkswagen. A ideia, no entanto, nunca se concretizou. Diferenças culturais e metodológicas tornaram o relacionamento inviável. Alemães e norte-americanos simplesmente não conseguiram encontrar um terreno comum.
Em 2006, o então colunista do Correio do Povo visitou a sede da Chrysler, em Auburn Hills, subúrbio de Detroit. Executivos e operários ainda lembravam do “casamento” fracassado e da percepção de que os alemães eram prepotentes, não valorizando a criatividade e a improvisação características da Chrysler. Na época, mais de mil engenheiros alemães de Stuttgart haviam sido enviados para "colocar ordem na casa", com a missão de aprimorar os produtos da Chrysler e reduzir custos na Mercedes-Benz. Contudo, suas exigências rigorosas geraram conflitos.
Um episódio marcante foi o veto dos engenheiros alemães aos bancos projetados para um modelo Mercedes Classe E que seria produzido na fábrica da Chrysler. Apesar de serem ergonômicos e bem aceitos pelos consumidores americanos, os alemães consideraram os materiais de baixa qualidade. A decisão causou ressentimento em Auburn Hills, agravando os preconceitos já existentes contra os alemães.
Além disso, críticas constantes à engenharia da Chrysler alimentaram tensões históricas e culturais, muitas vezes associadas ao período nazista. Após nove anos de perdas financeiras e desgastes emocionais, a parceria foi dissolvida, deixando um legado de fracassos. Este caso se tornou referência acadêmica em cursos de administração, destacando como preconceitos e falta de respeito cultural podem comprometer uma associação.
Volvo e Geely: parceria bem-sucedida
Ao dirigir o XC40 elétrico, é evidente o resultado de um casamento bem-sucedido. A união entre a Volvo e a chinesa Geely começou em 2010, quando a Geely adquiriu a icônica marca sueca por 1,8 bilhão de dólares. Na época, a Volvo, adquirida pela Ford em 1989, estava debilitada após anos de má gestão. Já a Geely, então uma produtora de carros a combustão, não possuía tecnologia ou qualidade para competir globalmente.
Os chineses surpreenderam ao demonstrar respeito pela tradição e conhecimento técnico da Volvo. O presidente da Geely, Li Shufu, reconheceu que a Volvo tinha muito a ensinar. Desde 2010, a Geely investiu mais de 15 bilhões de dólares na Volvo, que desenvolveu SUVs e veículos elétricos competitivos no mercado global.
A colaboração foi impulsionada pela decisão do governo chinês de priorizar a eletrificação, com subsídios que beneficiaram marcas como Geely e Volvo. Hoje, ambas compartilham tecnologia e fábricas na Suécia e na China. O sucesso foi construído com base no respeito humano, na proibição de preconceitos e na valorização da diversidade cultural — exatamente o oposto do que ocorreu no fracasso da Mercedes-Benz e Chrysler.
