Iniciada em 2020, a Renaulution, estratégia de competitividade elaborada pelo ex-CEO Luca de Meo e sua equipe multinacional de especialistas, significava recolocar a Renault na direção da competitividade global, através de uma completa reestruturação na linha de produtos e processos industriais. Afinal, os anos que viriam seriam desafiadores para as grandes marcas europeias, que a partir de 2020 enfrentariam a onda elétrica dos chineses, com marcas e modelos que gradativamente tomaram conta do mercado.
E a Renaulution retomava o caminho da eletrificação, pavimentado inicialmente pela Renault, que lançou uma linha de veículos elétricos no Salão de Frankfurt de 2011. Na época, foi um investimento de mais de 12 bilhões de euros. Mas a Renault, por problemas internos, abandonou o carro elétrico. Pela “porteira aberta”, os chineses entraram — e o resultado o mundo conhece. Uma BYD quase domina o mercado global com bons modelos elétricos. Que não são excepcionais.
Em 2024, Luca de Meo, em reunião em Paris com a imprensa internacional, afirmou que a única maneira de combater os chineses seria na produção de veículos melhores em t-o-d-o-s os sentidos. O pragmatismo de De Meo induziu que a Renault se associasse à chinesa Geely na geração de uma nova linha de veículos produzidos em conjunto. A associação se consolida no Brasil, onde, a partir do segundo semestre, a rede Renault comercializará o modelo Geely EX5, um belo SUV de linhas suaves produzido na China.
E é só o começo, porque a parceria entre as duas marcas serve também à atualização da tecnologia elétrica da parte da Renault, que foi pioneira na eletrificação em 2011, no lançamento de modelos no Salão de Frankfurt. Em julho de 2025, são os chineses que comandam a eletrificação, mas a Renault luta bravamente para ser necessária num mundo que já acha mais fácil falar mandarim — uma língua que um estrangeiro pode dominar em mais ou menos 30 anos de aprendizado constante. Um brasileiro pode dominar o francês, língua de origem latina, em dois anos no máximo. Assim como a cultura francesa é muito mais próxima da cultura brasileira.
No entanto, são os carros chineses os preferidos em 2025. Mesmo que tenham "karaokê" a bordo. E cantar em conjunto num habitáculo é algo tão próximo aos brasileiros como a Muralha da China. É lógico que essa proximidade ao produto chinês é alimentada pelos trilhões de dólares em subsídios que o governo comunista investe na indústria automobilística da China — com resultados evidentes na rápida expansão das montadoras chinesas no mundo.
É uma batalha desigual, na medida em que marcas ocidentais como a própria Renault não dispõem de bilhões de dólares para lançar novos modelos e mais novos modelos em tempo recorde. É muito mais difícil para a Renault lançar um novo modelo ao custo de muitos bilhões.
Em março de 2024, a Renault lançou o Kardian, um sólido e competitivo SUV. Em outubro de 2025 surgirá um novo Kardian, possivelmente com novo motor e novo câmbio. No mesmo período, quantos novos modelos uma BYD trouxe para o mercado brasileiro? O Song, sucesso de vendas, ganhou diversas versões — vários Songs num só. Essa diversidade, que lota os showrooms da rede BYD, custou bilhões de dólares. E o excesso de produção também contribui para a lotação dos showrooms.
Mas a Renault, entre outras marcas ocidentais, resiste. E o belo e sedutor Boreal mostra que os chineses não terão vida fácil. Mas o que é, afinal, o Boreal?
Sem dúvida, um veículo com visual impactante, num design cheio de sinuosidades que fazem sentido. Não há excessos e linhas destoantes no design do Boreal. A impressão inicial é que os designers acertaram, e o Boreal se equilibra entre o luxo e o bom gosto com facilidade. Isso com certeza refletirá como o sol no ego do consumidor. No lançamento, com o veículo estático num amplo salão, muitos certamente se imaginaram ao volante do belo Boreal, sendo admirados. Eu me senti assim, não posso negar.
Ao contrário de alguns SUVs chineses, que fazem do tamanho tantas vezes um notável exagero, o Boreal é grande na medida certa. São 4,56 metros no comprimento, 1,84m na largura, 1,65m na altura, com entre-eixos de 2,70m. O Boreal é maior que rivais como o Jeep Compass, Corolla Cross ou Taos. Mas a sutileza do design o faz parecer menor.
E o forte e performático motor 1.3 TCe turbo flex com 163 hp e torque de 27,5 kgfm, acoplado ao câmbio automático de dupla embreagem úmida EDC com seis marchas. Com cinco modos de condução e 24 sistemas de última geração de auxílio ao motorista, o mundialmente reconhecido ADAS insere piloto automático adaptativo, centralização ativa de faixa, alerta de colisão com frenagem autônoma de emergência, câmeras 360 graus, entre outros sistemas.
É o complemento tecnológico para um produto ocidental que não renega a habilidade construtiva das marcas chinesas — apenas salienta que as montadoras ocidentais reagem à invasão chinesa da única maneira possível, explicitada pelo ex-CEO Luca de Meo, que afirmou: “Temos que ser melhores do que eles.”
O Boreal mostra que a Renault pode. Mas esta descrição jornalística favorável ao Boreal e à Renault se vale de constantes experiências com modelos da marca. A Renault sabe fazer — modelos como o Renault 5 dos anos 70, o belo e performático Laguna dos anos 90, o pioneiro Scénic, o primeiro monovolume a fazer sucesso no Brasil. O “eterno” Duster, com seu jeito rude, mas totalmente adaptado às rudes condições de uso no Brasil, onde 100 mil quilômetros rodados equivalem a 300 mil nas ótimas rodovias da Europa Ocidental.
O Duster mostrou ser forte no Brasil. Tem ainda o pequeno e valente Clio, que motorizou milhões de brasileiros, e tantos outros modelos que afirmaram a Renault no mundo e no Brasil.
Nem tudo foram rosas. A Renault teve também seus carros mal-sucedidos e pouco vendidos. Mas segue em frente como um sinônimo de progressividade humana e tecnológica. A Renault é empresa inclusiva, voltada ao equilíbrio entre o homem, a tecnologia e o meio ambiente.
Daí vem grande parte de seu sucesso global. O Boreal sintetiza princípios inabaláveis da Renault.
