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Brasil é terceiro no mundo em insegurança de trânsito

País apresenta tráfego caótico e perigoso, parte por inoperância estatal, parte por cultura do risco

Motorista precisa agir para mudar paradigma
Motorista precisa agir para mudar paradigma Foto : Marcelo Casal Jr / ABr / Divulgação CP

O engenheiro Daniel Bassoli é um especialista em segurança veicular, segurança de trânsito e inspeção veicular, com um invejável currículo: engenheiro mecânico, mestre em engenharia e gestão de processos e sistemas, especialista em perícias de veículos, especialista em inspeção veicular, diretor executivo da FENIVE (Federação Nacional da Inspeção Veicular), participa da diretoria da Associação Mineira da Segurança Veicular e também é professor na pós-graduação da PUC de Minas Gerais, na área de segurança e engenharia de trânsito. Com tal currículo, Daniel Bassoli não teme afirmar que: "O trânsito no Brasil é caótico e perigoso”.

"Por décadas, o Brasil figurou no top 5 como um dos cinco sistemas de trânsito mais letais do mundo. Agora estamos no Top 3, ou seja, somos o terceiro país com o trânsito mais letal. O Brasil é companheiro de países socialmente primitivos. Não é motivo de orgulho contabilizar até 60 mil mortes no trânsito por ano. As estatísticas sobre acidentes não são confiáveis, e algumas são maquiadas por políticos que não querem associar suas gestões a mortes no trânsito", enfatizou.

"Isto é muito grave porque, além das mortes, há os feridos. E os números são chocantes, já que o Brasil tem 20 mortes no trânsito por 100 mil habitantes. Em um país de perfil popular, aquele que morreu era o provedor da família, que literalmente fica na mais intensa pobreza. Esses feridos faltam na renda e oneram a família nos longos períodos de recuperação, que são um insuportável ônus financeiro", acrescentou.

É uma epidemia de acidentes… "No Brasil, os acidentes de trânsito são uma epidemia tão ou mais grave que a pandemia de Covid. No Covid, o antídoto foi a vacina, que salvou milhões de vidas. Qual o antídoto para aquele motorista que perde o controle e bate num poste a 100 km/h? É provável que todos morram numa colisão em alta velocidade, num círculo vicioso sem antídotos que gerem um trânsito seguro", avaliou.

Segundo o especialista, os sinistros são gerados por falhas comportamentais, que começam na negligência em relação à manutenção do veículo. "No Brasil, o motorista sente que o carro não freia, mas prossegue, até matar e morrer. Também há o uso cada vez mais ampliado de drogas excitantes ou alucinógenas, que agora fazem companhia à bebida alcoólica, amplamente utilizadas pelos motoristas. Ainda há a direção abusiva e agressiva, como o uso da alta velocidade em cidades e rodovias. Esses são os principais fatores humanos até o sinistro", ponderou.

Há ainda os erros de engenharia rodoviária e sinalização, comuns no Brasil. "Acima de tudo, o sinistro é a conjunção de fatores humanos, psicológicos e materiais que podem ser mudados em prol da segurança do trânsito", acrescentou. Para o especialista em segurança, nós, brasileiros, temos que "fazer nossa parte", acreditando que o sistema de trânsito pode melhorar para que as pessoas dirijam em uma realidade segura e respeitosa, sobretudo.

"Para que isso aconteça, o brasileiro não pode esperar por milagres de um Estado, em geral, omisso nos temas de segurança. O motorista tem que ser mais responsável ao volante, mais cooperativo e consciente sobre uma direção segura. O governo, evidentemente, tem a maior responsabilidade em proporcionar estradas com um ótimo nível de engenharia e com sinalização vertical que utilize tecnologia de ponta. Deve corrigir no menor tempo possível as múltiplas falhas de engenharia e sinalização que matam", prosseguiu.

"Havia a Curva da Morte na rodovia BR-040, que liga Belo Horizonte ao Rio de Janeiro. Por décadas, essa curva, que enganava o motorista com uma mudança brusca de trajetória, provocou milhares de acidentes, em geral com mortos e feridos. A Curva da Morte sintetizava a negligência do Estado e só foi eliminada na duplicação da rodovia, recentemente. Com a duplicação, a BR-040 é hoje uma rodovia segura", definiu.

Para o especialista, a formação mais exigente do motorista, leis de trânsito mais rígidas de rápida aplicação e o investimento em rodovias seguras são fatores que reduzirão a letalidade do trânsito no Brasil, salientou.

Por último, o engenheiro destacou a segurança veicular em um país onde as montadoras, na maioria das vezes, pensam na redução dos custos de produção, o que significa, por exemplo, reduzir o número de airbags. "Há veículos lançados no Brasil recentemente com somente dois airbags, o que é muito pouco. Hoje, SUVs produzidos na China têm 12 airbags. Mas o novo Citroën C3, direcionado ao segmento de entrada, tem somente dois airbags. O Citroën recentemente recebeu zero estrela no teste de impacto do Latin NCAP, um instituto privado que faz um trabalho competente em relação à segurança veicular", acrescentou.

"É tempo das montadoras, Contran e institutos de verificação de segurança privados estabelecerem um padrão comum de segurança para todos os veículos, independentemente do poder aquisitivo do consumidor. O Brasil deve instituir a inspeção veicular obrigatória para veículos de passeio, veículos de uso profissional, ônibus e caminhões. É inaceitável que caminhões não sofram inspeções periódicas em segurança. Como é inaceitável e inumano que um caminhão superpesado perca os freios em uma serra e passe por cima de uma van, matando oito jovens gaúchos que participariam de uma competição de remo. Isso não é um acidente. Foi homicídio."

Convém lembrar que as vans que transportam estudantes também não passam por nenhuma avaliação de segurança. "Se, por acaso, sofrem alguma inspeção, em geral, é a chamada inspeção fake ou falsa. O resultado de tantos erros e falhas de gerenciamento do sistema de trânsito é a insegurança generalizada e potencialmente mortal do sistema de trânsito no Brasil, que é um obstáculo para o desenvolvimento tecnológico dos veículos produzidos no país", concluiu.

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