A imprensa europeia concedeu um amplo espaço para a análise da saída do CEO da Renault, Luca De Meo, que nos últimos cinco anos pilotou a “Renaulution” ou “Revolução Renault”. A ousada estratégia proposta por De Meo visava reformular a Renault, que em 2020, quando Luca De Meo assumiu, não vivia nenhum apogeu. A Renault tinha uma linha de veículos envelhecida, perdas financeiras bilionárias e recuava na participação no fundamental mercado europeu, onde a Renault sempre esteve à frente. Na França, suas rivais Peugeot e Citroën a ultrapassavam.
Mas, sob o comando do experiente e ousado Luca De Meo, no período de 2020 a 2025, a Renault mudaria sua estratégia, com redução na produção e força de trabalho, redução do número de funcionários em suas operações globais e revisaria sua aliança com a problemática Nissan, uma marca deficitária. Vítima de graves desarranjos internos, a Nissan consumia o capital da Renault, que também perdia milhões de euros com prejuízo recorde em 2023.
Luca De Meo apresentou à diretoria global da Renault e aos acionistas a estratégia denominada “Renaulution”, que visou sanear financeiramente a marca para torná-la de novo competitiva. A “Revolução Renault” teve três fases: Ressurreição (2020-2023), a primeira fase, impactante, visava frear a evidente decadência da Renault com medidas enérgicas de redução de custos, retomada da lucratividade e foco na criação de uma nova linha de produtos que, gradativamente, tornaram de novo a Renault atraente para os consumidores numa escala global.
Surgiram no mercado competitivo os SUVs Bigster, Kardian, Arkana, Renault 4 e 5, o novo Scénic, Mégane elétrico, entre outros modelos que reposicionaram a Renault no mercado global. A segunda fase, de Renovation ou Renovação, incluiu a criação das divisões Ampere, para o desenvolvimento e produção de veículos elétricos, principalmente, e a Horse, direcionada à produção de motores a combustão e híbridos, ainda os preferidos do consumidor global, principalmente em mercados terceiro-mundistas. O lançamento do Kardian mostrou a força desta divisão Horse.
A última fase, em andamento, a “Revolution”, visa tornar a Renault de novo uma líder em tecnologia, energia e mobilidade. Modelos como o elogiado Renault 5 elétrico, a transformação da marca esportiva Alpine numa marca elétrica de alta performance e a expansão da subsidiária romena Dacia são exemplos de uma renovada Renault, que em 2025 voltou ao lucro, com maior participação de mercado. O próximo lançamento do belo SUV Boreal no Brasil, previsto para julho, é parte do “legado” de Luca De Meo, um CEO que se importava com belos veículos, tecnológicos e inovadores.
Luca De Meo sempre teve uma visão estratégica, futurista, mas realista do automóvel, no sentido de induzir a produção de modelos como o novo Duster, que é produto da Dacia romena, que também evoluiu tecnologicamente, tornando-se tão ou mais competitiva que a Renault. O novo Duster é um belo SUV, mais refinado na tecnologia e design em relação à geração anterior. Ao “estilo” De Meo, o Duster, que sempre foi meio “rude” na forma e comportamento, se transformou no belo Duster que de novo faz sucesso no mundo.
Um CEO que, apesar da ênfase na lucratividade, necessária a qualquer montadora, não descuidou da qualidade do produto e apostou numa diversidade de modelos para diversos segmentos. Luca De Meo, por diversas vezes, salientou o pioneirismo da Renault em relação à eletrificação. Em 2011, a Renault apresentava no Salão Internacional de Frankfurt uma linha competitiva de carros elétricos que tinha os ótimos Zoe, Fluence elétrico, o Twizy urbano, entre outros. A Renault precedeu em muitos anos o sucesso dos chineses no carro elétrico.
Mas, sob comando do “bipolar” e desonesto Carlos Ghosn, a Renault abandonou completamente a eletrificação e direcionou bilhões de dólares para “ressuscitar” a Nissan, que até hoje não deu lucro para a Renault. Mas De Meo não “deserdou” a Nissan. Apenas exigiu que a Nissan tivesse um CEO mais competente que Makoto Uchida, que, com seus erros de estratégia, estacionou a Nissan na incômoda posição do fracasso em vendas. Com um novo CEO competente, o mexicano Iván Espinosa, que assumiu o cargo através do apoio de De Meo, a Nissan começa a apresentar novidades, como o belo novo Kicks, que em breve será lançado no Brasil.
Nos últimos três anos, a Renault enfrentou a competitividade das marcas chinesas, o que abalou a ascensão da Renault nos mercados do mundo e, principalmente, no mercado europeu, reduto da Renault, mas que, em 2024, assimilou mais de um milhão de veículos eletrificados produzidos na China. Mas a Renault reagia à invasão chinesa com veículos eletrificados de extrema qualidade, como o Mégane elétrico, Renault 4 e outros.
Teme-se que a saída de Luca De Meo dificulte a implementação de estratégias que se mostraram eficientes na recuperação da Renault. Em 2024, Luca De Meo declarou na imprensa da França que colocar tarifas elevadas de importação sobre carros chineses seria uma medida inútil, porque os chineses, fortemente subsidiados, rebaixam os preços de seus veículos artificialmente para aniquilar a concorrência.
De Meo afirmou na imprensa francesa que o único caminho para enfrentar os chineses é a produção de veículos europeus com qualidade superior à dos veículos chineses. E a Renault tem expertise na eletrificação, reavivada por De Meo, para conter o avanço de montadoras como a BYD, que deseja a liderança global na eletrificação. Basta ver os bilhões que a BYD investe em marketing e publicidade no mundo para alardear que seus carros são mesmo os melhores. Mas um Renault Mégane elétrico é muito melhor do que um Seal ou Song.
Afinal, Luca De Meo, em cinco anos, deixou um legado positivo e competitivo para a Renault. Ele sai da montadora para chefiar as operações globais do Grupo Kering, que atua no mercado do luxo. Nos próximos meses, os chineses não serão mais os competidores de Luca De Meo, que assume as operações globais de marcas famosas como Gucci, Saint Laurent, Bottega Veneta, entre outras. Os chineses ricos, obcecados pelo luxo produzido na França, investem bilhões de dólares em “sonhos de consumo”, como as bolsas de custo milionário da Gucci.
Então, chineses serão de agora em diante os clientes de Luca De Meo, que ao menos terá o prazer e descanso de não enfrentar os chineses no mercado automobilístico global. Mas as razões que fizeram Luca De Meo deixar a Renault nunca serão reveladas.
Com a saída de Luca De Meo, será crucial para a Renault achar um nome à altura do talento do italiano. Uma tarefa difícil num mundo do automóvel em acelerada transformação, que tem sido cruel com os executivos que não correspondem às expectativas dos grandes grupos econômicos que investem em montadoras. A corporação Renault fez escolhas infelizes após a saída de Carlos Ghosn em 2018. A imprensa europeia, e particularmente a imprensa francesa, especula por que De Meo saiu em meio à sua bem-sucedida “Renaulution” e por que escolheu uma corporação da moda, a Kering, que tem dívida bilionária.
Pode ser uma questão de ego recuperar também a mística de marcas famosas como a Gucci. Mas trocar a democrática Renault pela indústria elitista da moda talvez seja somente uma estratégia pessoal que o livra do enfrentamento constante com os chineses, que agem como uma patrola sem motorista — simplesmente passam por cima.
Bastidores com Luca de Meo
Talvez seja uma volta às origens numa Itália que ama a moda, deste italiano que por muitos anos esteve ligado à Fiat, onde foi diretor mundial de marketing. Quem conheceu Luca De Meo nos “velhos tempos” dos grandes salões do automóvel se surpreendia ao ver um executivo que vestia calças de couro preto, “botinhas” ao estilo Beatle dos anos 60 e usava cabelo comprido.
Na Fiat ninguém se importava com a aparência de Luca De Meo, que fazia sucesso entre as mulheres, por ser um “boa pinta italiano”. Mas o talento e a criatividade empresarial de Luca De Meo superavam seus críticos, que o achavam excessivamente “informal”. Qual executivo de uma Mercedes-Benz ousaria usar uma calça de couro “descolada”?
Em 2002, De Meo uniu-se ao Grupo Fiat, onde foi chefe de Unidades de Negócios da marca Lancia, antes de ser nomeado pelo “lendário” Sergio Marchionne, o criador da Fiat Chrysler Automobiles, para a diretoria mundial de marketing da Fiat, de 2007 a 2009.
Convém lembrar da gentileza de De Meo com a imprensa. O executivo concedeu diversas entrevistas ao Correio do Povo, na cobertura ao vivo dos Salões do Automóvel, de 1989 a 2016, ininterruptamente. Foi um tempo mais do que suficiente para conhecer Luca De Meo e acompanhar seu trabalho.
Na edição do tradicional jornal Le Figaro, no final de semana, foi citada a preferência pelo poderoso grupo Kering, proprietário das marcas luxuosas Gucci, Saint Laurent e Bottega Veneta. Embora os negócios do grupo estejam também no luxo imobiliário, turismo elitizado, entre outras atividades, agora Luca De Meo, como CEO, deve atender às preferências dos milionários chineses, cada vez em maior número, “fissurados” no luxo produzido na França e Itália.
Afinal, chineses amam as Ferraris e Mercedes-Benz AMG GT, porque ainda não se sentem seguros nos ultra velozes carros esportivos elétricos das marcas chinesas. Mas se De Meo conseguiu atrair consumidores chineses para carros híbridos e elétricos da Renault, como o Mégane e o novo Duster, produzido pela Dacia, pode ampliar o poder da Gucci e da Saint Laurent.
Luca De Meo é elogiado na imprensa europeia por sua visão estratégica e habilidade para reviver marcas em dificuldades. E, apesar de todo glamour que cerca a marca Gucci, das bolsas que custam milhares de euros, o Grupo Kering tem dívida de mais de 15 bilhões de euros em bancos internacionais. Para pagar tal dívida, a Gucci deve manter as vendas em alta, o que não tem acontecido.
Num mundo cheio de guerras e instabilidade econômica, que atinge também mercados poderosos como China, Europa e Estados Unidos da América, as marcas luxuosas sofrem os efeitos da instabilidade geopolítica. Então, o Grupo Kering, endividado, passa a contar com o talento de Luca De Meo. Quem perde é a Renault, que tem que achar um CEO com talento que sustente o renovado sucesso da marca, estimulado justamente por Luca De Meo.
